{"id":2152,"date":"2025-08-23T12:09:34","date_gmt":"2025-08-23T12:09:34","guid":{"rendered":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/?p=2152"},"modified":"2026-03-21T14:04:31","modified_gmt":"2026-03-21T17:04:31","slug":"parque-nacional-da-tijuca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/parque-nacional-da-tijuca\/","title":{"rendered":"Parque Nacional da Tijuca\u00a0 &#8211; Antes do Brasil &#8211; 1A"},"content":{"rendered":"<p>Floresta da Tijuca com a Pedra da G\u00e1vea ao fundo<\/p>\n\n\n\n<p>imagem: Anacarla az &#8211; Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported *<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">.<\/h6>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large img-produto\"><a href=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Bicho-preguica-scaled.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"868\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Bicho-preguica-868x1024.jpg\" alt=\"Bicho-pregui\u00e7a, esp\u00e9cie encontrada no Parque Nacional da Tijuca\" class=\"wp-image-2164\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Bicho-preguica-868x1024.jpg 868w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Bicho-preguica-254x300.jpg 254w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Bicho-preguica-768x906.jpg 768w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Bicho-preguica-1302x1536.jpg 1302w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Bicho-preguica-1736x2048.jpg 1736w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Bicho-preguica-1600x1888.jpg 1600w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Bicho-preguica-780x920.jpg 780w\" sizes=\"auto, (max-width: 868px) 100vw, 868px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>____________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Um olhar mais amplo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O Rio de Janeiro recebeu seu nome por um equ\u00edvoco: navegadores portugueses, ao chegarem no m\u00eas de janeiro, tomaram a Ba\u00eda de Guanabara pela foz de um grande rio \u2014 e assim ficou registrado. Quase toda a costa brasileira, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, era coberta pela Mata Atl\u00e2ntica, hoje reduzida a fragmentos dispersos. Para proporcionar um entendimento contextual mais amplo, achamos interessante, antes de explorarmos aspectos espec\u00edficos do Parque Nacional da Tijuca, dar um panorama hist\u00f3rico do Rio de Janeiro. A exuber\u00e2ncia descrita nos relatos antigos dificilmente ser\u00e1 recuperada por completo, mas o n\u00facleo protegido pelo Parque abriga um conjunto de florestas secund\u00e1rias de valor inestim\u00e1vel \u2014 testemunhas vivas de um processo raro de regenera\u00e7\u00e3o em plena \u00e1rea urbana.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Das primeiras cartas \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Desde a Carta de Pero Vaz de Caminha, que maravilhado registrou o encontro com a natureza brasileira e os povos da terra. Passando pela presen\u00e7a dos jesu\u00edtas, pelas lutas de Mem de S\u00e1 e Est\u00e1cio de S\u00e1 contra os franceses da Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica, a Ba\u00eda de Guanabara j\u00e1 se colocava como cen\u00e1rio de disputa, encantamento e conquista. A alian\u00e7a com os povos ind\u00edgenas, simbolizada por figuras como Arariboia, mostrou como o Rio nasceu n\u00e3o apenas da espada e da flecha, mas tamb\u00e9m de pactos, convers\u00f5es e resist\u00eancias. A ba\u00eda, desde ent\u00e3o, se tornou centro de imagina\u00e7\u00e3o e poder, tema de cronistas, viajantes e, s\u00e9culos depois, de int\u00e9rpretes como L\u00e9vi-Strauss P<a href=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/parque-nacional-da-tijuca-1b\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/parque-nacional-da-tijuca-1b\/\">arte 1B<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A heran\u00e7a ind\u00edgena e os significados da terra<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria paisagem do Rio se escreve em tupi. Palavras que ainda usamos \u2014 nasceram tamb\u00e9m de povos que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais aqui, como os Tupinamb\u00e1. Essas palavras carregam mundos, uma delas \u00e9 Tijuca. Voc\u00ea sabe o que significa? E Guanabara&#8230; que j\u00e1 foi nome de ba\u00eda, de prov\u00edncia e at\u00e9 de estado, o que quer dizer Guanabara? Entre relatos coloniais, tratados, mitos e manifestos modernistas, essas palavras ind\u00edgenas seguiram vivas, plantando ra\u00edzes que atravessam os s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ATEN\u00c7\u00c3O: <\/strong>Seguindo a escrita do livro de Andr\u00e9 Prous, <em><strong>O Brasil Antes dos Brasileiros<\/strong><\/em> de 2006 e<strong> <\/strong>confirmado no livro de Reinaldo Jos\u00e9 Lopes, 1499: <em><strong>O Brasil Antes de Cabral <\/strong><\/em>de 2017, de n\u00e3o usar o <em><strong>s<\/strong> <\/em>para colocar no plural, por exemplo: os Tupinamb\u00e1, ou seja, nas denomina\u00e7\u00f5es de povos ind\u00edgenas na l\u00edngua tupi-guarani.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Abrindo o jogo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong><strong>A tentativa aqui \u00e9 sempre a mesma: seja qual assunto for, se isso ou aquilo ou mesmo os acol\u00e1s!<\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Procuramos fazer isso com humor e ironia<\/strong>, numa tentativa de revelar os lados inusitados que a hist\u00f3ria insiste em esconder. Seja por capricho, conveni\u00eancia ou simples descaso.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja essa hist\u00f3ria a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, a da sustentabilidade, a da arte, a da ci\u00eancia, ou ainda os fatos do dia a dia que pensamos controlar \u2014 e aqueles que simplesmente nos fogem das m\u00e3os, como o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ainda d\u00e1 tempo<\/strong>!<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Para entender o Parque Nacional da Tijuca, \u00c9 Preciso Voltar no Tempo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Brasil \u00e9 nosso, ningu\u00e9m tasca eu vi primeiro, \u00f3 p\u00e1!<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Vamos passar por pequenos trechos escolhidos a dedo e comentados a boca pequena&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Senhor:<br>Posto que o Capit\u00e3o-mor desta vossa frota, e assim os outros capit\u00e3es escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navega\u00e7\u00e3o se achou, n\u00e3o deixarei tamb\u00e9m de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que \u2014 para o bem contar e falar \u2014 o saiba pior que todos fazer.<\/em>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(talvez essa palavra achamento  possa indicar o ditado, achado n\u00e3o \u00e9 roubado!)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230; <em>Enquanto ali, este dia, andaram, sempre ao som dum tamborim nosso dan\u00e7aram<br>e bailaram com os nossos, em maneira que s\u00e3o muito mais nossos amigos que n\u00f3s seus<\/em>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(aqui podemos inferir por onde a coisa iria caminhar&#8230;)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Andaram na praia, quando sa\u00edmos, oito ou dez deles; e de a\u00ed a pouco come\u00e7aram a vir mais. E<br>parece-me que viriam, este dia, \u00e0 praia quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>(nem que fossem milh\u00f5es naquele momento, a doutrina da descoberta rezava que a terra dos n\u00e3o crist\u00e3os era <em>terra nullius<\/em>, ou seja, terra de ningu\u00e9m)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230; <em>Nela, at\u00e9 agora, n\u00e3o pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro;<br>nem lho vimos. Por\u00e9m a terra em si \u00e9 de muito bons ares&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Nesse trecho ecoa a febre que esses metais desencadeariam no Novo Mundo: primeiro a prata de <strong>Potos\u00ed<\/strong> (real), depois o mito de <strong>El Dorado<\/strong> (sonho), alimentando uma corrida enlouquecida por todo o continente. Corrida n\u00e3o menos insana tamb\u00e9m nas terras portuguesas, onde a busca por riquezas r\u00e1pidas se sobrepunha a qualquer rela\u00e7\u00e3o mais profunda com a terra \u2014 e com os povos que nela viviam)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"740\" src=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/caravela-portuguesa-e-carta-de-caminha-1024x740.png\" alt=\"Caravela portuguesa com velas cruzadas ao lado da Carta de Pero Vaz de Caminha, marco hist\u00f3rico da chegada ao Brasil.\" class=\"wp-image-2243\" srcset=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/caravela-portuguesa-e-carta-de-caminha-1024x740.png 1024w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/caravela-portuguesa-e-carta-de-caminha-300x217.png 300w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/caravela-portuguesa-e-carta-de-caminha-768x555.png 768w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/caravela-portuguesa-e-carta-de-caminha-1536x1111.png 1536w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/caravela-portuguesa-e-carta-de-caminha-2048x1481.png 2048w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/caravela-portuguesa-e-carta-de-caminha-1600x1157.png 1600w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/caravela-portuguesa-e-carta-de-caminha-780x564.png 780w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Caravela portuguesa e a Carta de Pero Vaz de Caminha \u2013 marco escrito da hist\u00f3ria do Brasil ap\u00f3s mil\u00eanios de presen\u00e7a ind\u00edgena.<\/strong><br>montagem digital: Paulo Lai Werneck &#8211; <em>imagem caravela: Sebasti\u00e3o L\u00f3pes  &#8211;  Wikimedia Commons<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Tropic\u00e1lias<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><em>&#8230; \u00c1guas s\u00e3o muitas; infindas. E em tal maneira \u00e9 graciosa que, querendo-a aproveitar, <strong>dar-se-\u00e1 nela tudo<\/strong>, por bem das \u00e1guas que tem &#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(<strong><em>Pero Vaz de Caminha escreveu apenas: dar-se-\u00e1 nela tudo, pois havia \u00e1gua\u2026 seria a inspira\u00e7\u00e3o do percussionista Dirceu, que no improviso acabou abrindo a Tropic\u00e1lia de Caetano?<\/em><\/strong>)<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Quando Pero Vaz Caminha descobriu que as terras brasileiras eram<br>f\u00e9rteis e verdejantes, escreveu uma carta ao rei. Tudo que nela se planta,<br>tudo cresce e floresce. E o Gauss da \u00e9poca gravou.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Era um texto improvisado, mas declamado com tanta flu\u00eancia que ainda engana muita gente \u2014 que ouviu esse mote \u2014 e o toma como sendo da Carta de Pero Vaz de Caminha. Mas foi Rog\u00e9rio Gauss, t\u00e9cnico de som da grava\u00e7\u00e3o de <em>Tropic\u00e1lia<\/em>, quem captou o momento inspirad\u00edssimo de Dirceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, Caminha foi o seu pr\u00f3prio Gauss. E com isso, surgiu um Brasil atrav\u00e9s da pena e um outro, o da Tropic\u00e1lia pelo microfone \u2014 numa triangula\u00e7\u00e3o t\u00e3o precisa que at\u00e9 o outro Gauss, o matem\u00e1tico, sorriria de canto de boca&#8230; Pois algumas pessoas associavam o nome Gauss ao grande matem\u00e1tico, pois era uma esp\u00e9cie de enigma no final do mote, enquanto outras pessoas ouviam e nem ligavam&#8230; Voc\u00ea ao ouvir: <em><strong> E o Gauss da \u00e9poca gravou<\/strong><\/em>. o que pensou na \u00e9poca?<\/p>\n\n\n\n<p>Por falar em tabela, imagino que Dirceu foi quem fez a percuss\u00e3o do in\u00edcio da m\u00fasica&#8230; boa demais, por sinal&#8230; e ele gravando ouvindo sua voz, agora valendo! E pelo que vi, n\u00e3o havia ficha t\u00e9cnica para dar cr\u00e9dito aos m\u00fasicos&#8230; UAU!.. que estavam atuando nas grava\u00e7\u00f5es, mas como ele era o percursionista, \u00e9 meio que ligar A + B&#8230; c\u00ea sabe, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas vamos deixar Carlos Calado, em seu livro <em>Tropic\u00e1lia: A Hist\u00f3ria de uma Revolu\u00e7\u00e3o Musical<\/em>, contar a hist\u00f3ria desse abre ic\u00f4nico da m\u00fasica <em>Tropic\u00e1lia<\/em> de Caetano Veloso e depois (((vendo::ouvindo))) o abre novamente&#8230; mas vamos dar voz ao Carlos Calado:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Predestinada a ser uma esp\u00e9cie de manifesto, Tropic\u00e1lia recebeu tamb\u00e9m uma bem-sacada<br>e espont\u00e2nea contribui\u00e7\u00e3o do percussionista Dirceu. Para testar o som do microfone, sem nem<br>mesmo conhecer a letra da can\u00e7\u00e3o, Dirceu come\u00e7ou a narrar, em tom de goza\u00e7\u00e3o, o lend\u00e1rio <br>epis\u00f3dio da descoberta do Brasil:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Quando Pero Vaz Caminha descobriu que as terras brasileiras eram<br>f\u00e9rteis e verdejantes, escreveu uma carta ao rei. Tudo que nela se planta,<br>tudo cresce e floresce. E o Gauss da \u00e9poca gravou.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Acostumado \u00e0s sacadas instant\u00e2neas dos happenings e da m\u00fasica<br>aleat\u00f3ria, J\u00falio Medaglia pediu na hora ao t\u00e9cnico Rog\u00e9rio Gauss<br>que ligasse o gravador \u2014 o bem-humorado improviso de Dirceu tinha tudo<br>a ver com a can\u00e7\u00e3o. \u00c0 tirada do percussionista transformou-se<br>na introdu\u00e7\u00e3o da Tropic\u00e1lia de Caetano.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A Tropic\u00e1lia de H\u00e9lio Oiticica e a Tropic\u00e1lia dos Tropicalistas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Tropic\u00e1lia de Caetano? H\u00e9lio Oiticica batizou sua instala\u00e7\u00e3o de 1967 como Tropic\u00e1lia, uma obra com labirintos de madeira, areia, plantas, araras e TV ligada \u2014 uma cr\u00edtica\/celebra\u00e7\u00e3o da cultura brasileira onde o corpo e a presen\u00e7a de quem entrasse na instala\u00e7\u00e3o teria uma experi\u00eancia bem diversa da arte, como se a vida permeasse essa viv\u00eancia art\u00edstica, n\u00e3o mais um espectador passivo, agora parte integrante da obra.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte, 1968, o disco-manifesto <em>Tropic\u00e1lia ou Panis et Circencis<\/em> pegou emprestado o nome. Oiticica, de in\u00edcio, torceu o nariz, achando que estavam reduzindo sua obra a <em>um r\u00f3tulo<\/em> pop.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas logo percebeu que a apropria\u00e7\u00e3o expandia o alcance do conceito: m\u00fasica, artes visuais, teatro, poesia \u2014 tudo dialogava. A marca Tropic\u00e1lia virou, ent\u00e3o, o guarda-chuva de um movimento est\u00e9tico-pol\u00edtico, se confundindo com o Tropicalismo na cabe\u00e7a das pessoas e na pr\u00f3pria m\u00eddia, uma esp\u00e9cie de sin\u00f4nimo&#8230; sem o ser. (exploraremos isso em outro artigo, mais para frente, a Tropic\u00e1lia e o Tropicalismo)<\/p>\n\n\n\n<p>E no entre e sai da usurpa\u00e7\u00e3o, apropria\u00e7\u00e3o, invas\u00f5es e coloniza\u00e7\u00f5es (nem sempre nessa ordem, tudo junto e misturado) .. \u00e9 bom lembrar que a nossa hist\u00f3ria vem dos diversos antes dos mares nunca dantes navegados, sigamos adiante&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os jesu\u00edtas batendo perna pelos Peabiru<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O desert\u00e3o virando sert\u00e3o que vira cidade<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Em agosto de 1553, o padre Manoel de N\u00f3brega, mesmo sofrendo de problemas nas pernas, subiu a Serra de Paranapiacaba pela trilha dos Tupiniquim, parte da vasta rede de caminhos ind\u00edgenas conhecida como Peabiru \u2014 estradas invis\u00edveis aos mapas europeus, mas vivas na mem\u00f3ria e no uso dos povos origin\u00e1rios, que por s\u00e9culos ligaram o Atl\u00e2ntico ao Pac\u00edfico. Sua inten\u00e7\u00e3o era alcan\u00e7ar o planalto e se aproximar do que ent\u00e3o se chamava <strong>sert\u00e3o <\/strong>(termo que, segundo uma das hip\u00f3teses etimol\u00f3gicas, teria vindo de <em><strong>desert\u00e3o<\/strong><\/em>, usado pelos portugueses para designar \u00e1reas despovoadas, afastadas ou fora do controle colonial).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Semeando aldeamentos, brotou uma cidade<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Ao lado de outros jesu\u00edtas, N\u00f3brega deixou dois irm\u00e3os para erguer uma casa e uma capela com aux\u00edlio do chefe Tibiri\u00e7\u00e1. Meses depois, em janeiro de 1554, N\u00f3brega, Jos\u00e9 de Anchieta e mais dez religiosos subiram novamente a Serra do Mar pelo caminho do Perequ\u00ea e, no dia 25, fundaram o Col\u00e9gio de S\u00e3o Paulo \u2014 considerado marco da funda\u00e7\u00e3o da cidade. Era na esplanada acima do rio Anhangaba\u00fa, consolidando alian\u00e7as com Tibiri\u00e7\u00e1, Piquerobi e Caiubi.. A cidade nascia na rota dos Peabiru, ponto estrat\u00e9gico entre litoral e interior, e logo se tornaria palco das primeiras negocia\u00e7\u00f5es e tens\u00f5es com povos ind\u00edgenas aliados e inimigos.<\/p>\n\n\n\n<p>A funda\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o se limitou ao col\u00e9gio erguido no alto da serra: os jesu\u00edtas, ao lado de N\u00f3brega e Anchieta, semearam uma rede de aldeamentos ao redor, articulando alian\u00e7as com os povos que j\u00e1 residiam nesses locais. Eram cerca de dez aldeamentos que, mais do que postos de catequese, funcionavam como n\u00facleos de povoamento, cada qual com sua ro\u00e7a, sua capela e sua gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns desses n\u00facleos deixaram marcas t\u00e3o profundas que os nomes resistiram e se tornaram bairros ou cidades da Grande S\u00e3o Paulo. O bairro de Pinheiros, por exemplo, nasceu do aldeamento S\u00e3o Paulo de Pinheiros, que tomou o nome das arauc\u00e1rias que abundavam na regi\u00e3o e hoje \u00e9 um dos bairros mais vibrantes da capital, que digam os vizinhos dos bares. S\u00e3o Miguel Paulista, criado em 1560, ainda guarda no nome o arcanjo que batizou a capela jesu\u00edta. Carapicu\u00edba, de 1580, carrega a mem\u00f3ria do peixe carapicu nas \u00e1guas da regi\u00e3o. Barueri, outro bairro de S\u00e3o Paulo, quer dizer: rio das pedras que rolam, e Itaquaquecetuba, lugar de muitas pedras de afiar, lembram como o tupi marcava as paisagens antes mesmo de se tornar l\u00edngua geral. E Guarulhos, de aldeamento virou a segunda maior cidade do estado, trocando o som ind\u00edgena pelo ronco dos avi\u00f5es do aeroporto.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a cidade de S\u00e3o Paulo n\u00e3o nasceu isolada, mas como uma trama de aldeias ind\u00edgenas reelaboradas pela l\u00f3gica jesu\u00edtica e colonial. Quando hoje falamos esses nomes \u2014 Pinheiros, Carapicu\u00edba, Itaquaquecetuba \u2014 repetimos ecos de uma geografia mais antiga, que se inscreveu tanto na l\u00edngua quanto no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A cidade de barro<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Daquele per\u00edodo, foi preservado um <a href=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/bioconstrucao-no-campo\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/bioconstrucao-no-campo\/\">muro de taipa de pil\u00e3o<\/a>, uma verdadeira testemunha ocular da \u00e9poca, que dialoga com as t\u00e9cnicas milenares de bioconstru\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel, revisitadas no presente. <\/p>\n\n\n\n<p>A taipa de pil\u00e3o n\u00e3o era uma t\u00e9cnica ind\u00edgena. Veio trazida pelos portugueses, inspirados em modelos usados na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e no norte da \u00c1frica, por sua vez herdados de tradi\u00e7\u00f5es romanas que estes aprenderam com os fen\u00edcios, tamb\u00e9m dos \u00e1rabes na \u00e9poca da expans\u00e3o mu\u00e7ulmana e  indo mais longe em dist\u00e2ncia e no tempo, da China. Logo se tornou pr\u00e1tica comum no Brasil, especialmente em S\u00e3o Vicente, S\u00e3o Paulo e depois Minas Gerais, por tr\u00eas motivos simples: havia terra em abund\u00e2ncia, madeira para as formas, e muita m\u00e3o de obra for\u00e7ada para socar o barro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em S\u00e3o Paulo de Piratininga, a t\u00e9cnica foi fundamental. O Col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas, marco da funda\u00e7\u00e3o da cidade foi erguido em taipa de pil\u00e3o. As paredes largas garantiam prote\u00e7\u00e3o contra o frio da serra e o calor dos tr\u00f3picos, e os jesu\u00edtas ensinaram a construir aldeamentos inteiros nesse sistema. Tanto que S\u00e3o Paulo por um bom tempo poderia ser chamada de cidade de barro, j\u00e1 que suas primeiras igrejas, casas e muralhas nasceram do solo comprimido da pr\u00f3pria terra e ficaram assim at\u00e9 meados do s\u00e9culo XIX quando come\u00e7aram a constru\u00e7\u00e3o com tijolos.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, quando a permacultura e a bioconstru\u00e7\u00e3o redescobrem a for\u00e7a do barro como material sustent\u00e1vel, esse muro preservado lembra que a S\u00e3o Paulo de concreto j\u00e1 foi, um dia, profundamente de taipa de pil\u00e3o e de pau a pique.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"829\" src=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pateo-do-colegio-1024x829.png\" alt=\"Montagem com registros hist\u00f3ricos do Pateo do Collegio em S\u00e3o Paulo: foto atual do Instituto Bixiga e foto em p&amp;b do Museu da Cidade de SP, destacando o muro de taipa de pil\u00e3o\" class=\"wp-image-2302\" srcset=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pateo-do-colegio-1024x829.png 1024w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pateo-do-colegio-300x243.png 300w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pateo-do-colegio-768x622.png 768w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pateo-do-colegio-780x631.png 780w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pateo-do-colegio.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Ambas a fotos mostram o muro de taipa de pil\u00e3o, testemunho da funda\u00e7\u00e3o da cidade de S\u00e3o Paulo. A foto atual funciona como mem\u00f3ria e nos liga tamb\u00e9m a uma t\u00e9cnica milenar de constru\u00e7\u00e3o e a foto em p&amp;b fixou a \u00e9poca da reconstru\u00e7\u00e3o do Pateo do Collegio onde foram descobertos esses muros de taipa de pil\u00e3o remanescentes das obras anteriores.<\/strong><br><strong>Para saber mais sobre essa hist\u00f3ria leia a mat\u00e9ria do <a href=\"https:\/\/institutobixiga.com.br\/patrimonio-historico-da-sao-paulo-colonial-o-patio-do-colegio\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/institutobixiga.com.br\/patrimonio-historico-da-sao-paulo-colonial-o-patio-do-colegio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Instituto Bixiga<\/a><\/strong><br><em>Registros fotogr\u00e1ficos hist\u00f3ricos do Pateo do Collegio, marco da funda\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo<\/em><br><em>Agradecemos a colabora\u00e7\u00e3o iconogr\u00e1fica do Instituto Bixiga: institutobixiga.com.br<br>montagem digital Paulo Lai Werneck: foto em preto e branco \u00e9 do Museu da Cidade de S\u00e3o Paulo. A foto atual \u00e9 do acervo do Instituto Bixiga<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"664\" src=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/taipa-de-pilao-pateo-do-collegio-Sao-Paulo-SP-1024x664.png\" alt=\"Muro de taipa de pil\u00e3o preservado na reconstru\u00e7\u00e3o do Pateo do Collegio, marco da funda\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo\" class=\"wp-image-2218\" srcset=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/taipa-de-pilao-pateo-do-collegio-Sao-Paulo-SP-1024x664.png 1024w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/taipa-de-pilao-pateo-do-collegio-Sao-Paulo-SP-300x194.png 300w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/taipa-de-pilao-pateo-do-collegio-Sao-Paulo-SP-768x498.png 768w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/taipa-de-pilao-pateo-do-collegio-Sao-Paulo-SP-1536x996.png 1536w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/taipa-de-pilao-pateo-do-collegio-Sao-Paulo-SP-780x506.png 780w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/taipa-de-pilao-pateo-do-collegio-Sao-Paulo-SP.png 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>De um outro \u00e2ngulo o muro de taipa de pil\u00e3o preservado na reconstru\u00e7\u00e3o do Pateo do Collegio, marco da funda\u00e7\u00e3o da cidade de S\u00e3o Paulo<\/strong><br><em>imagem: foto de 1953 \/ CONDEPHAAT, livro O S\u00edtio Urbano Original de S\u00e3o Paulo do Pateo do Collegio<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os jesu\u00edtas: da convers\u00e3o \u00e0 inquisi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Os jesu\u00edtas representam a face mais amb\u00edgua do encontro colonial. De um lado, a sincera a\u00e7\u00e3o de convers\u00e3o: aprenderam o tupi, traduziram catecismos, criaram col\u00e9gios, organizaram festas e pe\u00e7as teatrais que encantavam e educavam. Em muitos casos, foram barreira contra a escraviza\u00e7\u00e3o direta, oferecendo \u00e0s comunidades ind\u00edgenas algum espa\u00e7o de ref\u00fagio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, de outro, havia laivos de inquisi\u00e7\u00e3o embutidos. A catequese era tamb\u00e9m disciplina: condenava paj\u00e9s, queimava \u00eddolos, perseguia pr\u00e1ticas ancestrais. O aldeamento mission\u00e1rio funcionava tamb\u00e9m como laborat\u00f3rio de domestica\u00e7\u00e3o \u2014 controlando corpos e cren\u00e7as, impondo uma nova ordem cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre poesia e pol\u00edcia, entre tradu\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o, os jesu\u00edtas deixaram um legado duplo, que ainda hoje desafia leituras simplistas: foram vistos ora como quase santos, com a\u00e7\u00f5es em defesa da vida e at\u00e9 da liberdade, ora como carrascos de uma inquisi\u00e7\u00e3o n\u00e3o declarada, disfar\u00e7ada de instrumento de persuas\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quem foi pra Portugal, perdeu lugar!<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os de S\u00e1&#8230; s\u00e1 s\u00e1 sassaricando os franceses da Ba\u00eda de Guanabara<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Oui, n\u00f3s temos franceses em 1555, o Rio de Janeiro sofreu a primeira invas\u00e3o oficial pelos normandos, liderados por Nicolas Durand de Villegagnon, que se instalaram na Ilha de Serigipe (hoje Ilha de Villegagnon) com um plano ousado \u2014 fundar a Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica: uma esp\u00e9cie de ref\u00fagio para protestantes que fugiam do conflito religioso contra os cat\u00f3licos na Fran\u00e7a, mas tamb\u00e9m para disputar com Portugal as riquezas da Am\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, no caso do Rio de Janeiro, aconteceu como acontecia no meu tempo de escola quando algu\u00e9m se levantava e, na volta, encontrava seu assento ocupado e ouvia: quem foi para Portugal, perdeu o lugar! Curiosamente, os pr\u00f3prios portugueses foram pra Portugal e quando voltaram&#8230; estava ocupado, o Rio de Janeiro pelos franceses.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade os franceses, para irmos direto ao ponto, n\u00e3o estavam nem a\u00ed com a divis\u00e3o do mundo entre portugueses e espanh\u00f3is, queriam o seu quinh\u00e3o do que achavam ser o seu pir\u00e3o, o Rio de Janeiro e outros pontos do Brasil dando sopa ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os de S\u00e1: her\u00f3is e\/ou vil\u00f5es? Depende de que lado se olha<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Um tipo de fato recorre \u2014 \u00e0s vezes ben\u00e9fico, outras pernicioso: aqueles escolhidos para ressaltar nossa liga\u00e7\u00e3o com o lugar onde nascemos, o que chamamos de patriotismo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 o caso de esmiu\u00e7ar isso agora, mas basta um exemplo central: Mem de S\u00e1 e Est\u00e1cio de S\u00e1 entraram para a hist\u00f3ria como her\u00f3is fundadores do Rio de Janeiro. Est\u00e1tuas, ruas e pra\u00e7as celebram sua bravura contra franceses e Tupinamb\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, vista de perto, essa mesma bravura revela outra face: vilania. A <em>guerra justa<\/em>, conceito da \u00e9poca, autorizava massacres, aldeias queimadas, expuls\u00e3o dos povos da terra. Os acordos, quando feitos, eram logo rompidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alguns cronistas, foi hero\u00edsmo e funda\u00e7\u00e3o. Para os vencidos, devasta\u00e7\u00e3o e esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Duarte da Costa n\u00e3o deu conta do recado: n\u00e3o conteve os franceses, n\u00e3o organizou os colonos, deixou as coisas descambarem. A Coroa, ent\u00e3o, puxou o freio e mandou Mem de S\u00e1 com carta branca.<\/p>\n\n\n\n<p>Substituindo Duarte em 1558, ele assume o Governo-Geral do Brasil com uma ordem expressa de Lisboa: resolver de vez a bagun\u00e7a. Afinal, o antecessor havia falhado \u2014 os franceses continuavam firmes na Guanabara, os colonos viviam em desaven\u00e7as pelo Brasil afora, e at\u00e9 o pr\u00f3prio filho de Duarte arrumava briga de faca na Bahia.<\/p>\n\n\n\n<p>D. Jo\u00e3o III, dessa vez, n\u00e3o economizou nos poderes: concedeu a Mem de S\u00e1 autoridade c\u00edvel e penal quase ilimitada, na pr\u00e1tica, um xerife colonial, com a miss\u00e3o de colocar ordem a coisa e, sobretudo, expulsar os franceses de uma vez por todas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a resposta portuguesa veio em cap\u00edtulos. Primeiro, com Mem de S\u00e1, que em 1560 lan\u00e7ou uma ofensiva contra os franceses. Obteve vit\u00f3rias importantes, mas n\u00e3o conseguiu se assenhorar do terreno: os franceses estavam bem amparados pelos Tupinamb\u00e1, e a mar\u00e9 \u2014 literal e pol\u00edtica \u2014 n\u00e3o ajudou. Ainda assim, Mem n\u00e3o desistiu: saiu costurando alian\u00e7as com povos ind\u00edgenas aliados e refor\u00e7ou a presen\u00e7a militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1558 e 1564, Manuel da N\u00f3brega, requisitado por Mem de S\u00e1, liderou um trabalho intenso de pacifica\u00e7\u00e3o e acordos em S\u00e3o Vicente e arredores, especialmente com os Tupiniquim. Sua a\u00e7\u00e3o buscava conter a influ\u00eancia dos Tamoio e de seus aliados franceses, fundando aldeamentos e mediando alian\u00e7as que garantissem a presen\u00e7a portuguesa sem depender apenas da sua for\u00e7a militar, ainda escassa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1479\" height=\"880\" src=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/france-antartique.png\" alt=\"Mapa franc\u00eas do s\u00e9culo XVI mostrando a Ilha de Villegagnon, na Ba\u00eda de Guanabara, per\u00edodo da Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica no Rio de Janeiro.\" class=\"wp-image-2221\" srcset=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/france-antartique.png 1479w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/france-antartique-300x178.png 300w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/france-antartique-1024x609.png 1024w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/france-antartique-768x457.png 768w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/france-antartique-780x464.png 780w\" sizes=\"auto, (max-width: 1479px) 100vw, 1479px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Mapa franc\u00eas do s\u00e9culo XVI destacando a Ilha de Villegagnon durante a Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica no Rio de Janeiro<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized img-produto\"><a href=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_antigo_da_Baia_de_Guanabara.png\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"630\" height=\"882\" src=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_antigo_da_Baia_de_Guanabara.png\" alt=\"Mapa antigo da Ba\u00eda de Guanabara com destaque para a Aldeia de Martinho (Arariboia), l\u00edder ind\u00edgena temimin\u00f3, ap\u00f3s a vit\u00f3ria sobre os franceses no Rio de Janeiro.\" class=\"wp-image-2196\" style=\"width:840px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_antigo_da_Baia_de_Guanabara.png 630w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_antigo_da_Baia_de_Guanabara-214x300.png 214w\" sizes=\"auto, (max-width: 630px) 100vw, 630px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Mapa antigo da Ba\u00eda de Guanabara, posterior \u00e0 Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica e a derrota dos Tupinamb\u00e1, indicando a chamada Aldeia de Martinho \u2014 refer\u00eancia a Arariboia, l\u00edder Temimin\u00f3. Antes da chegada dos Temimin\u00f3 \u00e0 regi\u00e3o, o local era ocupado por uma aldeia Tupinamb\u00e1 conhecida como Jabebiracica, um dos n\u00facleos ind\u00edgenas que marcavam a presen\u00e7a tupinamb\u00e1 nas margens da ba\u00eda<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O pux\u00e3o de Mem de S\u00e1 na orelha do sobrinho Est\u00e1cio<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Pedro Doria no seu livro: <em><strong>1565 Enquanto o Brasil Nascia<\/strong><\/em> de 2012, diz que Mem de S\u00e1 alertou o sobrinho Est\u00e1cio:<em> podendo tomar conselho com o padre N\u00f3brega, n\u00e3o fizesse coisa de import\u00e2ncia sem ele. Um pux\u00e3o de orelha ligeiro dum tio, <\/em>pois a miss\u00e3o era dif\u00edcil: retomar a Ba\u00eda de Guanabara e fundar uma cidade para consolidar a presen\u00e7a portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3brega j\u00e1 havia aconselhado a corte que, para acabar com o perigo franc\u00eas, era preciso se instalar no Rio de Janeiro. Mem refor\u00e7ou outro ponto:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230; <em>aconselhou Est\u00e1cio a n\u00e3o partir para a guerra sem ter Arariboia ao seu lado. Quando deixaram a Guanabara, naquele 2 de abril em 1563, Arariboia seguiu para S\u00e3o Vicente, onde foi batizado Martim Afonso. Este era o mesmo nome crist\u00e3o que Tibiri\u00e7\u00e1, em Piratininga, adotara \u2013 o nome de Martim Afonso de Souza, que havia mapeado o litoral brasileiro d\u00e9cadas antes e fundado a capitania de S\u00e3o Vicente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O ch\u00e1comigo do N\u00f3brega!<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Em 1563, uma incurs\u00e3o malsucedida mostrou a Est\u00e1cio o tamanho do desafio. Seguindo \u00e0 risca os conselhos do tio, manteve N\u00f3brega por perto. Pedro Doria narra que, numa cidade perto de S\u00e3o Vicente, o jovem capit\u00e3o \u2014 atormentado pelo peso da responsabilidade \u2014 resolvendo seguir o conselho de seu tio:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Que conta darei a Deus e a El-Rei se perder esta armada?, perguntou ao padre.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sempre pragm\u00e1tico, N\u00f3brega foi claro: <\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu darei conta a Deus de tudo, que Deus n\u00e3o tinha nada com isso. E, se for necess\u00e1rio, irei diante do rei a responder por v\u00f3s<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1cio de S\u00e1 depois do energ\u00e9tico <strong><em>deixa comigo!<\/em><\/strong>, de N\u00f3brega&#8230; que de quebra ainda descolou o montante necess\u00e1rio para as embarca\u00e7\u00f5es e pessoal, assim como enviar mensageiros pedindo refor\u00e7os a Mem de S\u00e1, usando o caixa da Companhia Jesu\u00edta para bancar boa parte da empreitada&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Bota Pra Quebrar Junto ao <strong>Bota Fora<\/strong>!<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os de S\u00e1&#8230; s\u00e1 s\u00e1 sassaricados pelos os Tamoio na Ba\u00eda de Guanabara<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Est\u00e1cio de S\u00e1 teria a ajuda n\u00e3o s\u00f3 dos Temimin\u00f3 de Arariboia, mas tamb\u00e9m de alguns figur\u00f5es da regi\u00e3o, como Belchior de Azevedo e Paolo Adorno. Juntos organizaram uma frota respeit\u00e1vel e, em fevereiro de 1564, atravessaram a barra da Guanabara. Desembarcaram silenciosamente na ilha de Villegagnon, onde improvisaram palho\u00e7as e aguardaram a chegada de refor\u00e7os. \u00c0 noite, na surdina, um pequeno grupo remou at\u00e9 o continente em busca de \u00e1gua no rio Carioca \u2014 mas a expedi\u00e7\u00e3o logo se transformou em pesadelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como narra Pedro Doria: <em>De repente estavam cercados e sobreveio um mar de flechas, os tamoios berrando&#8230; E a praia encheu-se&#8230;<br>&#8230;Centenas, milhares de \u00edndios. Batiam no ch\u00e3o, gritavam a plenos pulm\u00f5es, disparavam flechas in\u00fateis ao mar, deixando claro que n\u00e3o eram bem-vindos. Na ilha, s\u00f3 lhes restava tratar os feridos e enterrar os mortos. Sem nenhuma not\u00edcia de N\u00f3brega&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E a funda\u00e7\u00e3o da cidade? N\u00e3o foi dessa vez. A refrega foi um salve-se quem puder: muitos mortos, muitos feridos e, mesmo com embarca\u00e7\u00f5es avariadas, ainda conseguiram fugir de volta a S\u00e3o Vicente.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O resto da expedi\u00e7\u00e3o deixou a Guanabara em 30 de mar\u00e7o, incluindo a nau do capit\u00e3o Est\u00e1cio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Era uma quinta-feira e, por coincid\u00eancia cruel, na Sexta-feira Santa chegaram os jesu\u00edtas. Mas cad\u00ea o pessoal? Cad\u00ea o Est\u00e1cio? O ambiente era desolador: uma carnificina e a natureza anunciava uma tempestade, mas a chuva que ca\u00eda era de flechas das canoas dos Tamoio. Um beco \u2014 ou melhor, uma ilha sem sa\u00edda!<\/p>\n\n\n\n<p><em>E a Santa Maria, a Nova, cruzou a boca da Guanabara, de volta, naquela madrugada de 1\u00ba de abril. Salvaram-se todos. Pega de surpresa pela tempestade, decidiu tornar \u00e0 ba\u00eda para proteger-se quando encontrou os padres em apuros. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que acreditavam em milagres.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os de S\u00e1&#8230; s\u00e1 s\u00e1 sassaricando os franceses da Ba\u00eda de Guanabara (o retorno)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A virada come\u00e7ou em 1\u00ba de mar\u00e7o de 1565. Com apenas 18 ou 19 anos, Est\u00e1cio de S\u00e1 assumiu a lideran\u00e7a de uma tropa heterog\u00eanea, chegou \u00e0 entrada da Ba\u00eda de Guanabara com apoio estrat\u00e9gico dos jesu\u00edtas e dos Temimin\u00f3 de Arariboia desembarcando num lugar que j\u00e1 havia vislumbrado na fuga da refrega anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que pisou em terra, ordenou erguerem uma pali\u00e7ada fechando a praia \u2014 hoje conhecida como Praia de Fora \u2014 que vai do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar at\u00e9 o morro Cara de C\u00e3o. Ali nascia a cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>AH, T\u00e1 Fundaram o Rio de Janeiro!<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Opa! Por que h\u00e1 contesta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>1565 \u2013 Na Praia de Fora):<\/strong><br>Est\u00e1cio de S\u00e1, sob ordens de Mem de S\u00e1 e com apoio de Manuel da N\u00f3brega e Anchieta e Arariboia, ergue um fortim\/arraial militar para enfrentar tamoios e franceses.<br>Ainda n\u00e3o \u00e9 cidade, mas base estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1567 \u2013 Morro do Castelo:<\/strong><br>Ap\u00f3s a vit\u00f3ria contra os tamoios e a expuls\u00e3o dos franceses, Est\u00e1cio transfere o n\u00facleo para o Morro do Castelo, mais seguro e protegido.<br>Aqui passa a ser tratada como a cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Homologa\u00e7\u00e3o r\u00e9gia:<\/strong><br>O reconhecimento oficial viria depois, atrav\u00e9s de alvar\u00e1 r\u00e9gio, confirmando a funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Ou seja: Mem de S\u00e1 e Est\u00e1cio fundaram de fato; o rei fundou de direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, cidade ou n\u00e3o, essa fortifica\u00e7\u00e3o improvisada resistiria por quase dois anos a ataques constantes, alternando escaramu\u00e7as contra aldeias tupinamb\u00e1 e a constru\u00e7\u00e3o de estruturas defensivas. Para manter o \u00e2nimo da tropa e garantir presen\u00e7a efetiva, Est\u00e1cio come\u00e7ou a distribuir sesmarias, esbo\u00e7ando, de certa maneira, a futura malha urbana da cidade do Rio de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"785\" src=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pos-marc-ferrez-1024x785.jpg\" alt=\"Releitura fotogr\u00e1fica em estilo Ferrez mostrando o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar e a Fortaleza de Santa Cruz, recriada a partir de imagens do Google Earth com tons monocrom\u00e1ticos e uma caravela portuguesa ao fundo.\" class=\"wp-image-2260\" srcset=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pos-marc-ferrez-1024x785.jpg 1024w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pos-marc-ferrez-300x230.jpg 300w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pos-marc-ferrez-768x589.jpg 768w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pos-marc-ferrez-1536x1178.jpg 1536w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pos-marc-ferrez-780x598.jpg 780w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/pos-marc-ferrez.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Vista do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar (Fortaleza de Santa Cruz\/S\u00e3o Jo\u00e3o) numa releitura p\u00f3s-Marc Ferrez da foto<br>Vista do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar a partir da Fortaleza de Santa Cruz &#8211; 1890 circa &#8211; Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Ferrez &#8211; no Brasiliana Fotogr\u00e1fica Digital do Instituto Moreira Salles<\/strong><br><em>imagem: montagem digital por Paulo Lai Werneck, feita a partir de imagem do Google Earth, com atmosfera em preto e branco e inclus\u00e3o de uma caravelinha portuguesa<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"973\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/fortalezas-sao-joao-e-santa-cruz-rio-de-janeirorj-1-973x1024.png\" alt=\"Panorama da Ba\u00eda de Guanabara: colchetes do lado esquerdo destacam a Fortaleza de S\u00e3o Jo\u00e3o do lado do Morro Cara de C\u00e3o e a Fortaleza de Santa Cruz no lado de Niter\u00f3i \u00e9 indicada pelos colchetes do lado direito.\" class=\"wp-image-2266\" srcset=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/fortalezas-sao-joao-e-santa-cruz-rio-de-janeirorj-1-973x1024.png 973w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/fortalezas-sao-joao-e-santa-cruz-rio-de-janeirorj-1-285x300.png 285w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/fortalezas-sao-joao-e-santa-cruz-rio-de-janeirorj-1-768x808.png 768w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/fortalezas-sao-joao-e-santa-cruz-rio-de-janeirorj-1-1459x1536.png 1459w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/fortalezas-sao-joao-e-santa-cruz-rio-de-janeirorj-1-780x821.png 780w, https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/fortalezas-sao-joao-e-santa-cruz-rio-de-janeirorj-1.png 1520w\" sizes=\"auto, (max-width: 973px) 100vw, 973px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Aqui temos um panorama estrat\u00e9gico da Ba\u00eda de Guanabara. Os colchetes no lado direito assinalam a Fortaleza de S\u00e3o Jo\u00e3o, erguida por Est\u00e1cio de S\u00e1 em 1618 no Morro Cara de C\u00e3o, fechando a chamada Praia de Fora. Para o outro lado da entrada da ba\u00eda, os colchetes indicam a Fortaleza de Santa Cruz, constru\u00edda pelos portugueses em 1578 e com amplia\u00e7\u00f5es no Imp\u00e9rio, entre 1863 e 1870. No mesmo local  que Villegagnon em 1555 havia improvisado fortifica\u00e7\u00e3o para tentar controlar o mar da Guanabara<\/strong><br><em>imagem: montagem de Paulo Lai Werneck com imagens do Google Earth com a foto do lado direito inferior: Sheilinha1 &#8211; Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International  ***<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os de S\u00e1&#8230; s\u00e1 s\u00e1 sassaricando os franceses de vez da Ba\u00eda de Guanabara (tr\u00e1vez)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Em 1567, Mem de S\u00e1 chegou com refor\u00e7os para p\u00f4r fim aos ataques franco-Tupinamb\u00e1 (na verdade algumas dezenas de franceses e milhares de Tupinamb\u00e1) e apoiar o estabelecimento definitivo da cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro. O alvo principal era Uru\u00e7umirim, a mais importante aldeia fortificada Tupinamb\u00e1 na entrada da Guanabara, localizada nas proximidades da atual Praia do Flamengo.<\/p>\n\n\n\n<p>O assalto final reuniu tropas portuguesas e guerreiros Temimin\u00f3 liderados por Arariboia. O ataque come\u00e7ou com fogo nas pali\u00e7adas e intenso combate corpo a corpo. A vit\u00f3ria em Uru\u00e7umirim garantiu aos portugueses e seus aliados o dom\u00ednio estrat\u00e9gico da ba\u00eda, mas custou caro aos S\u00e1: Est\u00e1cio tinha sido atingido por uma flecha envenenada no rosto e morreria semanas depois, em 20 de fevereiro de 1567.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema desse <em>sassarico<\/em> todo \u00e9 que ele tomou a forma \u2014 ou apenas recrudesceu \u2014 do conceito de <em>guerra justa<\/em>, usado pelos portugueses e pelos europeus em geral para justificar o massacre imposto aos ind\u00edgenas, que queriam apenas exercer seu direito de povos da terra.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong> O in\u00edcio dos S\u00e1s governadores do Rio<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Com a vit\u00f3ria, os portugueses consolidaram o controle da Guanabara. Arariboia recebeu, em 1567, a concess\u00e3o de terras na margem oposta, onde fundaria a aldeia que daria origem a Niter\u00f3i. Poucos anos depois, D. Sebasti\u00e3o confirmaria a posse definitiva, e em Lisboa o homenagearia com roupas e ins\u00edgnias de gala.<\/p>\n\n\n\n<p>O comando passou a Salvador Correia de S\u00e1, primo de Est\u00e1cio, que manteve a alian\u00e7a com Arariboia e seus Temimin\u00f3 como base da defesa da cidade. O Rio de Janeiro seria terra dos S\u00e1 por muitas d\u00e9cadas, e todos eles, sem exce\u00e7\u00e3o, andariam sempre acompanhados de guerreiros ind\u00edgenas, confiando mais neles como soldados de valor do que em brancos. Salvador Corr\u00eaa de S\u00e1 falava a l\u00edngua geral fluentemente \u2014 a l\u00edngua da terra \u2014, que tamb\u00e9m seria a l\u00edngua de seus filhos e netos. Essa proximidade n\u00e3o eliminava contradi\u00e7\u00f5es: os mesmos S\u00e1 que valorizavam a presen\u00e7a ind\u00edgena mantinham outros tantos como escravizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os S\u00e1s comandando \u2014 e desalojando \u2014 franceses da paisagem carioca foi uma constante desde a invas\u00e3o francesa, por\u00e9m isso levou a uma persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel aos Tupinamb\u00e1 . E isso levou a quase um s\u00e9culo de S\u00e1s governando o Rio de Janeiro&#8230; pois depois ainda vieram Martim Correia de S\u00e1, Salvador Correia de S\u00e1 e Benevides e, por \u00faltimo, Martim de S\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mem\u00f3ria que sustenta o presente<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da Floresta da Tijuca revela que n\u00e3o existe preserva\u00e7\u00e3o sem mem\u00f3ria. O resgate das nascentes, o plantio de milhares de mudas e a recomposi\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio foram respostas a um colapso anunciado, mas tamb\u00e9m um gesto de rever\u00eancia ao que a cidade j\u00e1 havia perdido. Guardar essas narrativas \u00e9 garantir que as futuras gera\u00e7\u00f5es entendam que o verde que veem hoje \u00e9 fruto de escolhas \u2014 e que escolhas erradas tamb\u00e9m deixam marcas duradouras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que um registro hist\u00f3rico, esse passado \u00e9 um alerta permanente: a natureza, uma vez degradada, pode se regenerar, mas o custo \u00e9 alto e o tempo, longo. \u00c9 um patrim\u00f4nio conquistado com esfor\u00e7o coletivo e, por isso, precisa ser tratado como heran\u00e7a viva.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O equil\u00edbrio entre posse e usufruto<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O Parque Nacional da Tijuca \u00e9, legalmente, posse do Estado, mas seu sentido profundo \u00e9 o de usufruto coletivo. Pertence \u00e0 cidade como espa\u00e7o de encontro, lazer e educa\u00e7\u00e3o ambiental, e n\u00e3o como propriedade exclusiva de uma institui\u00e7\u00e3o. Essa vis\u00e3o amplia o compromisso da sociedade com sua prote\u00e7\u00e3o, pois o que \u00e9 de todos exige participa\u00e7\u00e3o ativa de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o \u2014 onde a posse n\u00e3o exclui, mas garante o acesso \u2014 \u00e9 um modelo de gest\u00e3o que pode inspirar outras \u00e1reas protegidas. Ele demonstra que conservar n\u00e3o significa isolar, e sim criar v\u00ednculos duradouros entre comunidade e territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>E a hist\u00f3ria continua Entre can\u00e7\u00f5es, rios e quimeras<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Se a Parte A terminou entre batalhas e funda\u00e7\u00f5es, a <a href=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/parque-nacional-da-tijuca-1b\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/parque-nacional-da-tijuca-1b\/\">Parte 1B <\/a>come\u00e7a num outro campo: o das palavras e mem\u00f3rias.<br>L\u00e9vi-Strauss cantarola Paulinho da Viola diante da Guanabara, Gabriel Soares v\u00ea no S\u00e3o Francisco o grande rio que passou em sua vida, e Policarpo Quaresma chega tarde demais ao sonho de uma l\u00edngua brasileira.<br>\u00c9 nessa arena de postais, tratados e can\u00e7\u00f5es que o Brasil come\u00e7ar\u00e1 a ser narrado \u2014 e disputado \u2014 n\u00e3o apenas no corpo da terra, mas tamb\u00e9m no corpo do papel.<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>Links para permiss\u00e3o das imagens:<\/p>\n\n\n\n<p>* <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Floresta_da_Tijuca_e_Pedra_da_G%C3%A1vea.jpg\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Floresta_da_Tijuca_e_Pedra_da_G%C3%A1vea.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Floresta da Tijuca &#8211; pedra da g\u00e1vea<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>** <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Bicho-pregui%C3%A7a.jpg\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Bicho-pregui%C3%A7a.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-3\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bicho pregui\u00e7a <\/a><\/p>\n\n\n\n<p> ***<a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Fortaleza_de_santa_cruz.jpg\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Fortaleza_de_santa_cruz.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-4\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Fortaleza Santa Cruz<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Floresta da Tijuca com a Pedra da G\u00e1vea ao fundo imagem: Anacarla az &#8211; Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported *&hellip;<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":2156,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-2152","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destinos-sustentaveis"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Floresta_da_Tijuca_e_Pedra_da_Gavea-scaled.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2152","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2152"}],"version-history":[{"count":185,"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2152\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3762,"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2152\/revisions\/3762"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2156"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/conexoesecosustentaveis.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}