Pré-COP30: O Chamado da PerguntAÇÃO

Pré-COP30: O Chamado da PerguntAÇÃO

A COP30 será realizada no Brasil em Belém do Pará, dia 10 de novembro de 2025 e neste artigo vamos tentar não reproduzir o que já é noticiado sobre esse importante evento que levanta muita polêmica, pois o tema incomoda muitos interesses, e as controvérsias são de diversos níveis que acontecem junto a polarização política e por esses motivos trazer um olhar diferente. Um pré-conteúdo diante de uma pré-perguntAÇÃO
imagem: Athena & PLW [colagens digitais]

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Ilustração digital de uma árvore com raízes que se estendem como ondas sobre a água, simbolizando a soma que vira multiplicação e o diálogo entre escuta e ação
Nós aqui do CES acreditamos nos processos democráticos, com esperança, porém sem ingenuidade. Sabemos que ainda há muito por fazer e para isso devemos agir. Isso fazemos de duas maneiras com uma dupla pegada: a escuta e a perguntAÇÃO. E o nosso velho mote de que a soma vira multiplicação!
imagem: Athena & PLW [colagens digitais]

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Introdução

O retorno da palavra viva

No artigo anterior, deixamos o eco de um convite: aguardem a perguntAÇÃO!
Agora, ela retorna aqui nesse da Pré-COP30 — não como slogan, mas como ritual de escuta.
Porque perguntar, no fundo, é abrir espaço para o outro existir pacientemente na escuta do mesmo.

E esse outro é abrangente: desde os povos originários e quilombolas afrodescendentes, o povo colonizador e, posteriormente, as diversas ondas de imigração que nos formaram.
E nós, ao grupo que me incluo — o Brasil miscigenado, esse espelho de contrastes e continuidades.
Perguntar é agir — ou melhor, perguntAÇÃO!
E talvez o maior ato político do nosso tempo seja perguntar sem já saber a resposta — e sem temer as respostas possíveis. Aí vem o saber ouvir…

Perguntar de onde chove

O que realmente queremos saber da COP30?
Se ela ainda é perguntAÇÃO — ou se apenas repete o que o mercado quer ouvir?

Será que a chuva que falta é só meteorológica?
Ou será que falta a chuva de perguntas, aquela que encharca mais de dúvidas do que de certezas e faz brotar a nascente do pensamentAÇÃO?

Em Tuvalu, na Polinésia, formado por nove ilhas e atóis, a água potável já não é metáfora — é limite.
O avanço do mar não é apenas a projeção para 2050 ou 2100 — é a maré alta que invade agora, como nas costas do mundo inteiro.
Não é só o nível do mar que conta, mas a força das águas, seu impacto e a erosão do bater contínuo à nossa porta!

É só procurar para achar: muitas cidades do litoral brasileiro — e de Portugal, da Indonésia, e de tantos outros lugares — já vivem essa fronteira móvel entre o mar e o chão.

Nossa, sim — bate à porta de todos nós, seja no excesso ou na falta.
De onde a retiramos, como a utilizamos, e como a devolvemos à natureza!

Quando foi que o mundo parou de se perguntar pelo sentido da água?

Entre o dito e o vivido

É dessa fenda que nasce o que chamamos de Pré-COP30:
um território de passagem entre o dito das salas de conferência e o vivido das florestas e quilombos — entre o PowerPoint de projetos e a plantação de ideiAÇÕES.

A perguntAÇÃO começa aqui: no esforço de transformar o discurso em diálogo, a urgência em presença, e a palavra em gesto de cuidado.

PerguntAÇÃO, pensamentAÇÃO, ideAÇÃO — e, por fim, efetivAÇÃO.

Abrindo o jogo

A tentativa aqui é sempre a mesma: seja qual assunto for, se isso ou aquilo ou mesmo os acolás!

Procuramos fazer isso com humor e ironia, numa tentativa de revelar os lados inusitados que a história insiste em esconder. Seja por capricho, conveniência ou simples descaso.

Seja essa história a própria história, a da sustentabilidade, a da arte, a da ciência, ou ainda os fatos do dia a dia que pensamos controlar — e aqueles que simplesmente nos fogem das mãos, como o das mudanças climáticas ou ainda, histórias simples ou simples histórias que estabelecem conexões com o que se fala por aqui no CES.

Ainda dá tempo!

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O Brasil e Um dos Seus Assuntos Mais Importantes

A água como pergunta central

A crise hídrica é mais que um problema: é um espelho.
A água é o retrato do país — ora falta, ora sobra, mas raramente é ouvida. É ensinada nas escolas o seu ciclo, porém na prática é ignorado o fundamento principal, os aspectos vivos que mantem esse ciclo funcionando.
A água por sua vez, se infiltra nas rachaduras das cidades, desce invisível pelos canos, evapora em promessas políticas. Fala em todos os sotaques, mas quase ninguém entende sua língua.

Enquanto discutimos quem tem razão, a água segue seu curso — e nos ensina que tudo que se divide, um dia se mistura.

Ilustração digital de uma mulher ajoelhada tocando uma nascente que brota em solo seco, de onde surgem plantas, peixes e borboletas, simbolizando o ciclo da água e da vida
É importante proteger as nascentes, é básico, mas é preciso proteger o ciclo todo. E esse ciclo precisa do solo, das árvores, dos animais e insetos, dos mares, dos rios…
imagem: Athena & PLW [colagens digitais]
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Da chuva à energia

Nossa matriz energética tem base nas hidrelétricas, depende do que não controlamos: o ciclo da água. Não há realmente um controle direto e reto, mas há sim maneiras de colaborar com o ciclo, restaurar elementos que fazem parte do mesmo e até o simples deixar as águas rolarem por onde devem estar que as vezes já tomamos o seu lugar e que se tornam lugar de tragédia anunciada.
O país que se alimenta de barragens não pode esquecer que a primeira energia é o ciclo da vida.
Cada represa é também uma pausa no curso natural da água — um espelho tenso, onde às vezes o reflexo da chuva demora a voltar.
E quando a água falta, tudo falta: luz, alimento, tempo. O tempo perdido do descaso.

Nesse ponto, surge a grande pergunta:
e a energia das fontes alternativas — solar e eólica — que se perde por falta de linhas de transmissão locais de serem interligadas ao sistema nacional? E as estruturas adequadas de armazenamento?

A justificativa é sempre a mesma: o investimento seria de grande monta.
Mas se há verba desviável, desviemos então o fundo destinado às eleições de parlamentares para esse fim — e ponto!
A perguntAÇÃO ecoa: porque isso não é feito?

Voltando a chover no molhado…
não é só a água doce que fala — as marés também nos chamam.
Seja em que oceano for, as águas sobem, descem, invadem, recuam.

Não é o planeta que afunda — é o solo da nossa escuta que desaba

Talvez o mito de Atlântida tenha um quê de verdade: muitas cidades estão, de fato, afundando tais como, Nova York, o solo cede cerca de 2 milímetros por ano sob o peso dos próprios arranha-céus e a Cidade do México, onde alguns pontos afundam até 40 centímetros anuais, resultado da extração do lençol freático.

E, para ficarmos em mais um exemplo, Jacarta, capital da Indonésia, já tem 40% de sua área abaixo do nível do mar, segundo o Instituto de Geociências da USP.
Ali, o processo de subsidência — o afundamento do solo — resulta de uma combinação de fatores antrópicos, ou seja, origem na ação humana e também agravado pelos naturais, os geológicos: a extração intensa do lençol freático, a urbanização desordenada e, o rebaixamento natural do terreno pela compactação dos sedimentos e pela atividade tectônica.

Entre 1982 e 2011, a cidade afundou, em média, 7,5 centímetros por ano, e as projeções indicam que, em cerca de 30 anos, boa parte da região norte poderá estar quase inteiramente debaixo d’água.
E, falando em estar debaixo d’água, Jacarta enfrenta graves inundações todos os anos, agravadas pelos mesmos fatores que causam o afundamento — somados ao entupimento quase total da rede de esgotos e à drenagem precária da cidade.

Imagens de satélite sobrepostas em formato vertical mostram a transformação da região de Nusantara, na ilha de Bornéu, de uma floresta tropical em 2022 para uma área urbanizada em 2024
Antes e depois da construção de Nusantara, nova capital da Indonésia: no alto, a floresta de Bornéu em 2022; abaixo, a urbanização acelerada em 2024
imagens: NASA Earth Observatory / domínio público
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Diante desses fatores, uma drástica solução se desenhou. Em 2022, o governo iniciou a transferência da capital para a província de Kalimantan Oriental, na ilha de Bornéu, e em agosto de 2024 inaugurou oficialmente a nova cidade — Nusantara — que ainda se parece mais com um imenso canteiro de obras do que com uma capital pronta.
A decisão, contudo, também enfrenta críticas socioambientais, como o impacto sobre os orangotangos — habitantes nativos das florestas locais — e sobre as comunidades indígenas que estão sendo remanejadas para abrir espaço à nova metrópole.

Vista aérea de Nusantara, nova capital da Indonésia, mostrando edifícios modernos em construção cercados por áreas verdes e passarelas sinuosas
Vista aérea de Nusantara, a nova capital da Indonésia, projetada como cidade verde e inteligente. Em construção desde 2022, a obra simboliza a tentativa de conciliar modernidade, planejamento urbano e sustentabilidade
imagem: PUPR Permukiman Kaltim – Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0
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E a perguntAÇÃO persiste:
será ironia ou repetição histórica que, para escapar de um colapso urbano, a solução encontrada seja começar outro — derrubando a floresta?

A história de Atlântida pode ser mito, mas o que ela espelha — continua sendo real.

Todos conhecemos o ditado: água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
Mas esquecemos que as ondas do mar também batem até que derrubam!

Muitos acreditam que a elevação de milímetros a centímetros no nível do mar é inócua.
Mas a massa d’água exerce uma força monumental — e quando arremessada nas marés altas, principalmente nas ressacas, seu impacto é devastador.
Esse processo é altamente erosivo, como se vê em várias cidades litorâneas do país e mundo afora.
(Procure no YouTube e acharás!)

Não é alarmismo: as projeções para 2050 e 2100 não são profecias, são alertas que não fecham a conta entre as ações que reduzem a temperatura e as que ainda a elevam.

E claro, falar assim é simplificar uma questão das mais complexas do nosso tempo.
O tempo em sua diversidade de sentidos: o tempo que temos (ou não) para reverter a situação, e o tempo como clima — o bom, o ruim, o imprevisto.

Muitos lugares foram povoados em zonas instáveis — como Atafona, no norte do Rio de Janeiro, no encontro de uma foz de rio e o mar.
Outros, por especulação imobiliária e o desejo de ter o mar aos pés.
Durante décadas, não houve preocupação com o avanço das águas.
Nem sequer se usava a expressão mudanças climáticas.

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Lembro de alertas já nos anos 80 de especialistas, na TV Educativa, falarem que fenômenos como muita seca em alguns lugares e outros com um volume de chuvas intenso e frequentes iriam acontecer. Dito e feito, infelizmente.

Há muito tempo que a combinação entre ocupações irregulares das várzeas dos rios e obras estruturais mal planejadas para resolver a situação, vem agravando os desastres naturais que se repetem diante de nós.

Talvez alguém ainda diga que há alarmismo.
Mas, diante da história que se desenrola à nossa frente, não é prudente esperar que algum lugar fique totalmente submerso ou que mais cidades litorâneas tenham sua linha de frente derrubada como a de Atafona para começarmos a pensar em soluções possíveis.

Pequenas ações, grandes sinais

O cuidado começa no gesto mínimo.
Isso é difícil de aceitar para quem nega o poder das pequenas AÇÕES
mas é justamente aí que está a equação simples: a soma que vira multiplicação.

A soma é a das pessoas que acreditam nesse poder individual, independentemente do seu vizinho comungar das mesmas ideias ou não.
Alguém, em algum outro lugar, certamente sim. E se você — ou qualquer outro — pratica uma pequena AÇÃO nesse sentido,
e depois mais uma, e outra, e assim sucessivamente, há um efeito multiplicador que se faz sentir.

Invisível, talvez. Imensurável, com certeza. Ou seja, você não receberá medalhas e nem os louros, mas sua consciência o premiará pelo simples prazer interno de pensar e sentir: eu fiz a minha parte.

A ideia é simples, mas pode se tornar poderosa: se mil, milhão, bilhão — eis a soma das pessoas — fizerem uma AÇÃO cada, duas, três… eis a multiplicação!

(Num outro momento, prometemos um artigo só sobre isso…)

Cuidar também é perceber o percurso da água — a mesma que brota da montanha, atravessa o nosso corpo e se torna onda no litoral. Porque, afinal, é tudo a mesma água: doce, salgada, subterrânea, aérea — e toda ela pede o mesmo em troca: respeito no ciclo.

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A Maratona Climática e os Que Correm Descalços

A corrida das COPs

As conferências do clima já viraram uma espécie de maratona global. Poderíamos perfilar n poréns das COPs, mas já fizemos algo semelhante aqui:

COPs: a Maratona Climática em que o Planeta Ainda Tenta Chegar à Linha de Chegada

Ilustração de um corredor com cabeça de planeta Terra cruzando faixa com a frase Evento Climático, representando a COP
A COP é uma conferência que tenta conter a crise climática antes que a própria mudança climática ela cruze a linha de chegada. Difícil de acreditar, mas ainda estamos na frente nessa corrida, por isso ainda dá tempo, pois quando formos efetivamente ultrapassados, aí… aí será aiaiai uiuiui
ilustração: Athena&PLW [colagens digitais]

De COP em COP, o papel se repete — relatórios, metas, promessas — mas o clima não lê atas.

De COP em COP, só nos encheremos de papo?

E a COP30?

Sempre polêmicas, as construções nas cidades que recebem grandes eventos — principalmente os internacionais — e a COP30 não foge à regra.
Grande parte das intervenções, como a Green Zone e a Blue Zone, foi concluída, assim como as importantes obras de saneamento e a ampliação das áreas internas do aeroporto, para poder acompanhar o aumento de visitantes e delegações — restando saber se a rodovia ladeada por ciclovias, planejada para integrar partes distantes da cidade e desafogar os demais acessos à capital, também foi finalizada.

Uma boa notícia de Pré-COP30, o tradicional Mercado Ver-o-Peso, coração pulsante da cidade e símbolo de Belém, finalmente ganha sistema de esgoto. Meu pai, Ernesto Werneck que morou lá por um tempo, lembrava do cheiro intenso que tomava conta do ar — algo que, por décadas, parecia fazer parte da paisagem., mas apesar dessa crítica, a imagem do mercado para ele foi impactante, fiquei com três obras que ele fez do local.

Vista do Mercado Ver-o-Peso em Belém do Pará, com suas torres azuis, barcos atracados e barracas de feira às margens da baía do Guajará
O Ver-o-Peso, em Belém do Pará, é mais que um mercado: é um ponto de encontro entre rios e cultura. Às margens da baía do Guajará, reúne histórias, sabores e saberes da Amazônia
imagem: Wikimedia Commons / domínio público
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Fotografia de três quadros do artista Ernesto Werneck representando o Mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará, em diferentes técnicas e tonalidades
Três versões do Ver-o-Peso, em Belém do Pará — obras de Ernesto Werneck. As variações de cor e traço revelam o olhar do artista sobre o mesmo cenário amazônico, entre o porto, os barcos e as torres do mercado
imagem: acervo pessoal de Paulo Lai Werneck

Mas deixemos que dois vídeos, produzidos por um canal voltado à arquitetura, falem por si. Para quem tiver disposição e mais meia hora livre, eles oferecem um panorama precioso da cidade: no primeiro vídeo história da cidade contada pela arquitetura — que se em alguns momentos os arquitetos souberam lidar com o conforto térmico nesse ambiente de calor — muitos ainda não descobriram a utilização plena da madeira na arquitetura contemporânea, nem os da COP30. O Pará é lugar que sofre grandes desmatamentos e poderia virar o jogo e se tornar num polo de madeira certificada para arquitetura, com uma mudança de direção, uma drástica mudança por sinal. No segundo vídeo o olhar técnico sobre os investimentos feitos para a COP30 e a possibilidade de o espectador tirar suas próprias conclusões sobre se o montante foi bem gasto ou não.

Mesmo que, infelizmente, isso não altere a forma — quase sempre desigual — a respeito da aplicação das verbas disponíveis. As obras de saneamento, essenciais e urgentes, beneficiaram tanto as áreas mais vulneráveis, frequentemente atingidas por enchentes, quanto os bairros nobres, mas apenas nestes últimos, sobre os canais requalificados, foram construídas áreas de lazer. Porém antes das obras pré-COP30 em 2021 o projeto Usinas da Paz faz a vez nos bairros mais carentes com opções modestas, mas com boas soluções arquitetônicas e alcance social precioso, não só áreas de lazer, mas de educação e saúde, promovendo inclusão familiar.

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Quem corre por sobrevivência

Nas margens da corrida oficial há outros atletas, descalços e sem patrocínio: povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares.
Eles não correm por medalhas, correm por sobrevivência e por garantir seus direitos, infelizmente costumeiramente violados, principalmente suas terras. nclusive, os povos indígenas têm a seu favor um direito que antecede a própria Constituição — chamado direito originário.
Não é um privilégio concedido pelo Estado, mas o reconhecimento de uma presença anterior a ele.
Esses direitos não começam em 1988: eles vêm de antes das leis, antes das cercas, antes dos mapas. Como diz o próprio texto constitucional, os direitos originários são anteriores à formação do Estado brasileiro. O território indígena não é propriedade — é parentesco.

Os povos indígenas e os quilombolas têm, em sua maioria, uma visão diferente da nossa — especialmente de nós, que habitamos as cidades.
Eles sabem que o solo não é recurso — é relação. E que a natureza não é tema de debate — é membro da família.

Para quem vive da terra, a COP acontece todo dia — e sem coffee break.

Garantir que possam viver com plena autonomia, de acordo com suas crenças e valores, é o mínimo que se espera de uma sociedade que se diz civilizada.

E, da mesma forma, deve-se acolher com respeito os indígenas e quilombolas que escolhem viver nas cidades — sem presumir que esse é, ou deva ser, o destino de todos.

A verdadeira chegada

Talvez o planeta só chegue à linha de chegada quando aprendermos a correr juntos.
Não há vitória possível sem partilha de ritmo.
A maratona climática só faz sentido se o pelotão que segue a frente respirar no mesmo compasso — o da floresta, do campo, dos povos que nunca deixaram de ouvir o chão e os das cidades.

Quem corre descalço sente antes: a textura da terra, a inclinação do mundo, o pulso do tempo. E nada contra — só a favor de tecnologias que realmente respeitem a natureza em seus ciclos, afinando e ampliando as perspectivas sobre os saberes ancestrais que continuam sendo a base das técnicas de regeneração do solo e, consequentemente, da própria Terra.

O que não dá é tentar vender conceitos como o de agrofloresta aos povos originários e quilombolas como se fossem tecnologias de ponta — como já lembrava Antônio Bispo.

Enquanto isso, no mar aberto das negociações globais, há quem ainda insista em ver sinal de esperança.
Paul Watson, fundador da Sea Shepherd Conservation Society, veterano das frentes ambientais mais duras, aposta no Tratado do Alto Mar, assinado em 2023 para proteger a biodiversidade marinha em águas internacionais. O acordo precisa da ratificação de 60 países — 57 já o fizeram, e o Brasil aguarda apenas a sanção presidencial.

Entre a terra e o mar, há sinais de que a escuta começa a se mover — ainda frágil, mas viva.

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Finalmente Nos Convidaram Pra Essa Festa Pobre!

Sem ingenuidade, mas também sem desistência

A participação dos povos indígenas na COP30 não se deu exatamente por um convite formal, com data ou gesto oficial único — mas sim por conquista através de um processo de mobilização e diálogo constante, fruto de décadas de luta constante.

Pela primeira vez, o Brasil tem um Ministério dos Povos Indígenas cuja ministra, Sonia Guajajara, é uma liderança indígena. E, também pela primeira vez, a Funai é presidida por outra liderança, Joenia Wapichana, também indígena.
Duas mulheres, duas trajetórias e um mesmo gesto simbólico: colocar as vozes originárias no lugar de fala e de decisão. A presença indígena na COP30 é, portanto, ao mesmo tempo conquista e reconhecimento.

As lideranças indígenas sabem que as COPs têm sido, em grande parte, balcões de negócio travestidos de esperança, mas não pretendem abandonar o espaço.
Auricélia Arapiun, que segue em frente mesmo sob ameaças por seu engajamento e atuação como advogada e liderança indígena, ressalta que a única coisa positiva que vê na COP30 é a possibilidade de participação popular na Cúpula dos Povos — a Aldeia COP, uma espécie de COP dos indígenas, com espaço para cerca de 3 mil participantes — e a presença efetiva na Zona Azul de negociações oficiais, com uma comissão escolhida pelos próprios indígenas por meio do Ciclo COParente.

Um documento do Ministério dos Povos Indígenas, datado de 1º de setembro de 2025, resume bem o desafio:

Historicamente, as dificuldades logísticas limitaram a participação indígena nas COPs.
Indo poucas pessoas e com grande burocracia para credenciar entidades, o Movimento Indígena, via de regra, consegue suas credenciais com ONGs parceiras.
Em Belém, será o oposto. Há grande demanda dos povos indígenas, ao mesmo tempo em que a COP diminui o número de credenciados.
Assim, se não pensarmos uma saída estrutural, teremos restrições objetivas na participação indígena — que poderão ser entendidas como exclusão.

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Ou seja: não é mais sobre pedir convite — é sobre garantir assento.
E dessa vez, com o rosto indígena estampando a própria COP.

Uma grande movimentação dos povos originários em torno da COP30 não é apenas justificável, mas essencial — resultado de constantes e justas reivindicações. Ser em Belém do Pará pode ter suas desvantagens logísticas, já apontadas pela mídia, mas uma coisa é certa: eles estarão presentes.

Apesar das críticas contundentes — um coro quase unânime — a COP continua sendo um canal democrático capaz de estreitar os laços entre países que realmente buscam medidas efetivas contra as mudanças climáticas.

Davi Kopenawa — A floresta já fala, mas ninguém traduz o vento

No seu livro gestado em 20 anos de conversa com o antropólogo francês Bruce Albert chamado A queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, ele faz sua parte em colocar seus pensamentos em pele de papel, como ele mesmo diz:

O pensamento dos brancos é outro. Sua memória é engenhosa, mas está enredada em palavras esfumaçadas e obscuras. O caminho de sua mente costuma ser tortuoso e espinhoso. Eles não conhecem de fato as coisas da floresta. Só contemplam sem descanso as peles de papel em que desenharam suas próprias palavras. Se não seguirem seu traçado, seu pensamento perde o rumo. Enche-se de esquecimento e eles ficam muito ignorantes.

Seus dizeres são diferentes dos nossos. Nossos antepassados não possuíam peles de imagens e nelas não inscreveram leis. Suas únicas palavras eram as que pronunciavam suas bocas e eles não as desenhavam, de modo que elas jamais se distanciavam deles. Por isso os brancos as desconhecem desde sempre…

… Entretanto, para que minhas palavras sejam ouvidas longe da floresta, fiz com que fossem desenhadas na língua dos brancos. Talvez assim eles afinal as entendam, e depois deles seus filhos, e mais tarde ainda, os filhos de seus filhos. Desse modo, suas ideias a nosso respeito deixarão de ser tão sombrias e distorcidas e talvez até percam a vontade de nos destruir. Se isso ocorrer, os nossos não mais morrerão em silêncio, ignorados por todos, como jabutis escondidos no chão da floresta.

E a perguntAÇÃO mais lógica seria: porque não nos acercarmos desse pensamento e só depois tentarmos equacionar nosso entendimento?

Que a COP30 priorize os povos indígenas e a Amazônia, disse o líder Yanomami em uma entrevista.

Enquanto os brancos desenham planos de carbono e metas de neutralidade, o céu continua caindo sobre as cabeças Yanomami — não como metáfora, mas como mercúrio, fumaça, desmatamento.
Kopenawa não quer uma COP a mais; quer menos conversa e mais verdadeira escutAÇÃO!

Txai Suruí — O futuro já nasceu — só precisa ser cuidado

Txai Suruí fala sobre a COP30 e outros assuntos, tais como as ameaças e as agressões já sofridas pelos povos indígenas, podemos ouvir e ver nesse vídeo:

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Quando Txai Suruí falou na COP26, o mundo a ouviu, mas poucos entenderam.
Ela disse: O futuro é ancestral.
E com essa frase, desmontou séculos de arrogância cronológica.

Deixemos que ela mesmo fale:

Discurso de Txai Suruí na abertura da COP26:
Meu nome é Txai Suruí, eu tenho só 24, mas meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na floresta Amazônica. Meu pai, o grande cacique Almir Suruí me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a Lua, o vento, os animais e as árvores.

Hoje o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo, nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo.

Uma companheira disse: vamos continuar pensando que com pomadas e analgésicos os golpes de hoje se resolvem, embora saibamos que amanhã a ferida será maior e mais profunda?

Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais.
Não é 2030 ou 2050, é agora!

Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza.

Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões que acontecem aqui. Nós temos ideias para adiar o fim do mundo.

Vamos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis; vamos acabar com a poluição das palavras vazias, e vamos lutar por um futuro e um presente habitáveis.

É necessário sempre acreditar que o sonho é possível.
Que a nossa utopia seja um futuro na Terra.

O tempo dos povos da floresta não é linha — é espiral. Não se trata de salvar o amanhã, mas de cuidar do que já nasceu. Txai fala com a serenidade de quem sabe que a juventude indígena não é promessa, é presença.
Enquanto se fala em transição ecológica, eles já vivem a transição — do desmatamento à regeneração, da perda à persistência.

Formada em direito ela também atua na defesa dos direitos ambientais dos povos indígenas na Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé

Txai Saruí pertence a juventude que planta árvore hoje e não espera aplausos: espera sombra.

Ailton Krenak — Se for salão de negócios, fracassa antes de começar

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No programa Provoca, Aiton Krenak provoca:

O Oswald de Andrade tem uma poeminha que chama Erro de Português é onde ele fala que o português chegou na nossa praia estava num dia de chuva ele vestiu os índios se ele tivesse chegado no dia de sol os índios teriam despido português.

 Essa brincadeira me animou depois de muito muito tempo lendo aprendendo sobre poesia e literatura criar um outro poema, Equívoco de Português. Ele saiu pensando que estava indo para as Índias e veio bater com a nau dele aqui nas Américas, mas como ele pensou que estava indo para as Índias ele chamou as pessoas que ele encontrou na praia de índio. Há um erro e um equívoco no caminho...

Krenak ri, mas o riso é flecha no alvo:
a colonização começa no erro de endereço e no equívoco de nomear o outro.

Declaradamente contrário à ideia de progresso, ele lembra que foi em nome desse progresso que, em 2015, o rompimento da barragem da Samarco — controlada pelas multinacionais Vale e BHP Billiton — despejou no Rio Doce os dejetos de uma ação tecnológica chamada mineração.
Essa mesma tecnologia que promete desenvolvimento é a que destruiu o que, para os Krenak, é vida:

O Rio Doce, que nós chamamos de Watu, nosso avô, é uma pessoa,
não um recurso — como dizem os economistas.

Quatro anos depois, veio Brumadinho. Não por falta de recurso, mas por excesso de descuido. A tecnologia mais barata, o cálculo mais conveniente, o mesmo resultado:
barragens rompidas, vidas soterradas, rios em estado terminal que lentamente se recuperam.

Hoje imortal da Academia Brasileira de Letras, Krenak propõe levar para dentro dela as línguas dos povos ameríndios. A língua da terra, a língua da vida.

Em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, ele desmonta o vocabulário confortável da sustentabilidade:

Recurso natural pra quem?
Desenvolvimento sustentável pra quê?
O que é preciso sustentar?

A pergunta ecoa como trovão.
A COP30, diz ele, corre o risco de repetir os mesmos erros de sempre:

Se for um salão de negócios, a COP já fracassa antes de começar!

Krenak não é contra o diálogo — é contra o discurso travestido de mercado.
A economia verde que fala em compensar o carbono é a mesma que deixa impune quem o produz. E o maior risco é transformar a esperança em ativo financeiro.

Sua crítica atravessa o rótulo vazio do sustentável e entra direto no território da comunicação que engana quem já quer ser enganado e responde para Marcelo Tas no Provoca:

Se querem ir pra Marte, que vão logo — e saiam de cima de nós.

A frase vem com aquele bom humor que o caracteriza mesmo falando com toda seriedade.
Podemos interpretar assim: deixe quem quiser partir, mas respeite quem escolheu ficar — quem ainda chama e considera a Terra de Mãe, de Pacha Mama, de Gaia.

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Saberes Que Regeneram o Solo Dentro de Um Sentido Ancestral

Antônio Nego Bispo dos Santos — O quilombola que semeou pensamento

Nêgo Bispo, pensador e agricultor quilombola do Piauí, ensinou que a terra também pensa — e que o pensamento, quando nasce do chão, já vem fértil.

No seu livro, A Terra dá, a Terra quer ele propõe:

Em outros escritos em que traduzi os saberes ancestrais de nossa geração avó da oralidade para a escrita, trouxemos algumas denominações que as pessoas na academia chamam de conceitos. A partir daí, seguimos na prática das denominações dos modos e das falas, para contrariar o colonialismo. É o que chamamos de guerra das denominações: o jogo de contrariar as palavras coloniais como modo de enfraquecê-las.

…nós vamos dizer que o desenvolvimento desconecta, que o desenvolvimento é uma variante da cosmofobia. Vamos dizer que a cosmofobia é um vírus pandêmico e botar para ferrar com a palavra desenvolvimento. Porque a palavra boa é envolvimento.

Para enfraquecer o desenvolvimento sustentável, nós trouxemos a biointeração; para a coincidência, trouxemos a confluência; para o saber sintético, o saber orgânico; para o transporte, a transfluência; para o dinheiro (ou a troca), o compartilhamento; para a colonização, a contracolonização… e assim por diante. Ele entendeu esse jogo de palavras: Você tem toda a razão! Vamos botar mais palavras dentro da língua portuguesa. E vamos botar palavras que os próprios eurocolonizadores não têm coragem de falar!

E Antônio Nêgo Bispo falava mesmo. Tinha a coragem de falar — sua fala era incisiva e poética.
Se não prestarmos atenção, caímos na velha ilusão: pensamos que ele estava indo, mas ele já estava voltando — e voltando com uma ideia antiga, resgatada dos ancestrais, mas com cara e energia nova, pronta para encarar o mundo pelo avesso.

Fica aqui nossa singela homenagem ao quilombola Nêgo Bispo —
o homem que plantava palavras para que o pensamento voltasse a nascer da terra.

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O sustentável que esqueceu o chão

A palavra sustentável, para Bispo, soa como um eco estrangeiro — um termo feito para caber nos editais, nos artigos acadêmicos, não nos quilombos.

Sua proposta é outra: uma ecologia da vivência, não da manutenção.
Enquanto o ambientalismo técnico busca consertar o planeta, o quilombola busca conviver com ele. Um fala em mitigação; o outro fala em relação. O primeiro mede carbono; o segundo mede o tempo do feijão, a volta da abelha, o retorno da sombra.
Entre um e outro há um abismo, mas também uma ponte — e é nela que o CES caminha.

Seja como for, os saberes indígenas e quilombolas são a base do que hoje chamamos de agrofloresta — sistemas de plantio diversos que regeneram o solo e se tornaram inspiração direta para a permacultura.

A tecnologia pode somar-se a esses saberes, mas é curioso notar:
muitas vezes, eles aceitam nossa tecnologia antes mesmo de nós aceitarmos seus saberes. Saberes que devolvem vida a solos cansados, às vezes abandonados e muitas vezes em processo de desertificação — tudo sem agrotóxicos, sem veneno e sem pressa.

Diferente do que muita gente diz, isso não é querer voltar à Idade da Pedra ou a um período idílico da humanidade. É, na verdade, um recurso valioso, capaz até de chamar a chuva: a agrofloresta cria umidade, revitaliza o ciclo das águas e faz da convivência com a terra uma tecnologia de regeneração.

A pluralidade dos ambientalismos

O CES reconhece: não existe um único ambientalismo. Há o científico, o comunitário, o espiritual, o ancestral — e todos podem coexistir se houver escuta.

E há também o ambientalismo do marketing, o do rótulo apenas. Nenhuma empresa é 100% sustentável — mas há, sim, aquelas que caminham na direção de uma sustentabilidade real, mesmo quando isso é difícil de aferir.
Acreditar em toda ação ecológica declarada seria ingenuidade; mas ignorar os esforços concretos também seria.

O planeta, afinal, não fala uma língua só.
O CES — Conexões Eco Sustentáveis — acredita que a palavra sustentável precisa crescer nas suas acepções: enraizar no chão e ramificar ideias.

Já nascemos desvencilhados do uso acessório da palavra — aquela que serve de adorno ou de marketing verde, ou como diz Krenak, apenas um rótulo vazio.
Mas seguimos acreditando que sustentável ainda é uma palavra-ponte: ela pode ligar mundos diferentes, desde que não apague os caminhos nem ande por trilhas escusas.

Por isso, seguimos quatro direções de responsabilidade que consideramos essenciais a qualquer tipo de conexão eco sustentável — ambiental, social, econômica e empresarial — somando a cada uma delas ecos vindos dos saberes ancestrais. Não buscamos equivalências, mas ressonâncias.

  • Ambiental cresce quando aprende com o território-parente: a terra viva, os rios com voz, o vento que ensina medida.
  • Social se amplia quando entende o coletivo como corpo, o NÓS como base de qualquer EU.
  • Econômico se regenera quando troca o acúmulo pela circulação — o suficiente como noção de abundância.
  • Empresarial, talvez o mais desafiador, floresce quando o trabalho volta a ser mutirão, gesto de fazer-junto, quando há remuneração justa e claro, a atuação em ramos que respeitam os preceitos básicos  do que chamamos de respeito a vida no seu sentido amplo.

Muito conhecimento sobre a terra é ancestral, deriva dos modos indígenas ou quilombolas — aprendemos com eles.
Ao criarem e preservarem vocabulários próprios para dar sentido às suas comunidades e marcarem diferenças de posição em diversos planos, não apenas substituem o nosso vocabulário; nos oferecem a chance de ressignificar — ou de alargar o nosso.
E é nesse encontro de sentidos que a palavra sustentável deixa de ser adjetivo e volta a ser verbo.

Nota CES – O que escapa é o que nos ensina

Eduardo Viveiros de Castro disse que toda boa descrição de um povo termina com a frase:

É isso que você falou, mas não é bem isso!

E talvez seja essa a melhor tradução do diálogo entre mundos: saber que sempre vai faltar algo, porque o que escapa é justamente o que mantém o outro vivo. O CES reconhece esse limite com alegria — não como derrota.

Não queremos decifrar tudo, nem traduzir demais. A compreensão total é uma forma de desaparecimento, de invisibilidade. Por isso, como dizia Édouard Glissant, é preciso defender o direito à opacidade — o direito de cada ser ou cultura continuar existindo sem precisar ser completamente entendido.

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Comunicar Também É Cuidar

O guia para comunicadores

A comunicação sobre o clima não é neutra — é também um ato político e afetivo.
O Guia para Comunicadores: Educação, Antirracismo e COP30, produzido pelo Observatório da Branquitude, lembra que falar de planeta é também falar de quem foi apagado da história.
Não há transição ecológica sem transição de linguagem. E não há cuidado com o planeta sem cuidado com quem o narra.

A crise climática é também uma crise de escuta. As COPs se repetem, mas o ruído aumenta.
De cada relatório nasce um novo acrônimo; de cada urgência, uma nova sigla.
Mas o que falta ainda é o mais simples: ouvir de onde vêm as palavras.
Quem fala sobre o clima? Quem é ouvido? E quem continua traduzido pela metade?

O descomunicador irônico

Tem figurinha carimbada que talvez nem se veja como comunicador — e, se visse, dificilmente daria bola para o guia citado acima. Prefere se autoproclamar polemista de estimação da descomunicação.

O problema não é provocar, é produzir fumaça onde o fogo já queima demais.
O chamado politicamente incorreto até poderia ter um papel interessante se realmente questionasse contradições — mas, quando distorce fatos para zombar de causas legítimas, só ajuda a desinformação a se mascarar de coragem. É mais um penduricalho chamando atenção pro lado errado.

Palavras têm responsabilidade — e, como o carbono, também deixam rastro. Palavras também têm pegada de carbono — e algumas poluem mais do que esclarecem.

O que pensamos no CES

A comunicação sustentável é aquela que sabe ficar em silêncio quando o assunto é ouvir

No CES, acreditamos que comunicar é também cuidar: cuidar das margens, das pausas, do tom e do tempo. Não dá pra puxar a sardinha pro nosso fogo e chamar isso de ética.
O fogo que aquece demais de um lado costuma queimar o outro.

Por isso, preferimos soprar o vento da pergunta — ele apaga excessos e mantém o fogo aceso o suficiente para cozinhar ideias, não queimar diferenças.

Aqui no CES (Conexões Eco Sustentáveis), a gente pensa — e pensa junto.
Mas pensar, pra nós, não é escolher um lado: é abrir espaço para outros lados existirem, coexistirem…
Em tempos de polarizações em alta e escutas em baixa, comunicar também é cuidar das margens, onde as vozes se encontram antes de virar grito.

O CES não se propõe a salvar o planeta — ele se propõe a escutar. Escutar as pessoas, a terra, as águas, os ruídos e os silêncios.
E quando a gente fala de sustentabilidade, fala de cuidar — é disso que se trata:
de resistir à pressa das certezas, de perguntar antes de culpar, e de seguir pensando — porque pensar, aqui, é verbo de ação e de afeto.

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Conclusão

A esperança como presença

Apesar dos impasses de infraestrutura, dos problemas na hospedagem e, sobretudo, da ausência de convite para que indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais ocupem um lugar de destaque e de fala — mantemos a esperança.

Esperança de que a COP30 não apenas os receba, mas os reconheça, e que suas presenças não sejam simbólicas, mas fundadoras de sentido.

Que a escuta dessas vozes ancestrais se transforme em gesto político, que o lugar de fala se torne lugar de decisão, e que, entre as metas e os relatórios,
haja espaço para o que não cabe em planilha: a presença viva de quem cuida da Terra.

A pergunta volta com o vento

A COP30 ainda nem começou, mas a perguntAÇÃO já voltou a circular: quem fala pelo planeta e quem ainda não foi ouvido?

A relação do solo com a água, com a vegetação, com animais, insetos — e a AÇÃO humana — continua sendo o centro de tudo!

A plantAÇÃO

O CES segue perguntando, porque perguntar é um jeito de plantar. E se a terra dá e a terra quer, talvez o planeta também queira o mesmo: menos discurso e mais devolução.

Que nossas palavras caiam como chuva boa — não pra lavar a culpa, mas pra fazer brotar o diálogo.

Assim, a PerguntAÇÃO se transforma em escutAÇÃO,
e o ciclo se completa:
da palavra à prática,
do ruído à respirAÇÃO,
da COP ao corpo,
do chão à formAÇÃO do nós,
numa verdadeira constelAÇÃO.

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