Indígenas – Quilombolas e os ODS: Territórios da Resistência

Aurora trágica em floresta devastada, referência a resistência indígenas - quilombolas e os ODS

Aurora trágica: lembrando o poema A Morte do Leiteiro, de Drummond, em que o sangue se mistura ao leite formando a cor da aurora. Aqui, a cena simboliza a devastação da floresta: a terra sangra e se junta à seiva das árvores cortadas, enquanto o silêncio da distância oculta, por um tempo, a tragédia
imagem: Freepik e intervenção de Athena & PLW [colagens digitais]

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Aurora esperançosa sobre floresta em regeneração, ligada aos territórios da resistência dos indígenas – quilombolas e os ODS
Aurora esperançosa: evocando o mesmo Drummond, mas agora pelo avesso, quando a aurora não é manchada de sangue e nem da seiva do desmatamento, e sim iluminada pela promessa de um novo dia. A cena traduz o renascer da floresta, onde a seiva corre nas árvores e a luz suave anuncia que a vida insiste em brotar, apesar das feridas. É o símbolo de que Ainda dá tempo!
imagem: Freepik e intervenção de Athena & PLW [colagens digitais]

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Introdução

Uma história ancestral

Muito antes da ONU formular a Agenda 2030, povos indígenas e comunidades tradicionais já praticavam modos de vida sustentáveis. Cuidavam da terra em ciclos, regeneravam solos com práticas ancestrais e mantinham relações simbióticas com a natureza. Mas a colonização impôs duas violências estruturantes: primeiro, a escravização indígena, que arrancou povos de seus territórios; em seguida, a escravização negra, que transformou a terra em campo de exploração e monocultura. É nesse contexto histórico que o artigo Indígenas – Quilombolas e os ODS busca refletir: como essas trajetórias de resistência dialogam hoje com a agenda global de sustentabilidade?

O que os ODS têm a ver com isso?

Falar em ODS não é apenas falar de futuro, mas também de memória. Desigualdade, pobreza e mudanças climáticas têm raízes em estruturas coloniais que ainda ecoam em todo o mundo. Reconhecer esse passado é fundamental para entender a presença indígena e quilombola nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente no ODS 1 (Erradicação da Pobreza), ODS 10 (Redução das Desigualdades) e ODS 15 (Vida Terrestre). É nessa interseção entre memória e política global que podemos ler os territórios da resistência de ontem e de hoje.

Abrindo o jogo

A tentativa aqui é sempre a mesma: seja qual assunto for, se isso ou aquilo ou mesmo os acolás!

Procuramos fazer isso com humor e ironia, numa tentativa de revelar os lados inusitados que a história insiste em esconder. Seja por capricho, conveniência ou simples descaso.

Seja essa história a própria história, a da sustentabilidade, a da arte, a da ciência, ou ainda os fatos do dia a dia que pensamos controlar — e aqueles que simplesmente nos fogem das mãos, como o das mudanças climáticas ou ainda, histórias simples ou simples histórias que estabelecem conexões com o que se fala por aqui no CES.

Ainda dá tempo!

E nas portas da COP30, o Observatório da Branquitude lança uma publicação mais necessária que oportuna: Educação, Antirracismo e COP: guia de cobertura para comunicadores.

Sem mais, neste link acima você baixa esse conteúdo, que ao meu ver, ultrapassa os limites do setor da comunicação e diz respeito a todos nós.

Um guia como esse amplia o olhar sobre o que significa comunicar a sustentabilidade de forma justa e plural — lembrando que diversidade, inclusão e justiça racial também são eixos fundamentais da Agenda 2030.

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ODS 10 e ODS 1 – A Base Esquecida da Desigualdade

Escravização indígena: o primeiro ciclo

Muito antes da importação em massa de africanos escravizados, a colônia portuguesa no Brasil ergueu-se sobre a exploração direta dos povos originários. Do século XVI ao XVII, aldeias inteiras foram devastadas por bandeiras de apresamento. Essa violência fundadora é frequentemente invisibilizada na memória oficial, como se a escravização indígena tivesse sido apenas um episódio menor. Pelo contrário: foi um primeiro ciclo estrutural da desigualdade. O ODS 10 (Redução das Desigualdades) ganha aqui um contorno histórico — não basta olhar para índices atuais sem reconhecer que as raízes desse abismo social remontam a esse momento inaugural.

Soldados indígenas escoltando prisioneiros indígenas em floresta tropical – gravura de Jean-Baptiste Debret (1820–1830)
Jean-Baptiste Debret – Soldados índios da província de Curitiba escoltando prisioneiros indígenas (c. 1830). A captura de povos originários marca o primeiro ciclo da desigualdade no Brasil colonial. Na cena, os indígenas aparecem como soldados do império — um retrato das inversões forçadas pela colonização, em que vítimas e algozes eram moldados pela mesma estrutura de poder. Neste caso, os portugueses exploravam as desavenças indígenas utilizando os cooptados para reforçar o ciclo escravagista. Os traços caricaturais — quase orientais — reforçam o olhar estrangeiro de Debret sobre um Brasil que ele via com fascínio e crítica
imagem: Domínio público – Wikimedia Commons
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Escravização negra: continuidade e escala

Quando o tráfico atlântico se consolidou, a exploração ganhou escala global. Da cana-de-açúcar à mineração de ouro e diamantes, até o café no século XIX, a economia brasileira se sustentou sobre o trabalho escravo africano. Essa herança deixou marcas profundas: comunidades negras libertas, mas empobrecidas, sem acesso à terra e submetidas a políticas de exclusão. O ODS 1 (Erradicação da Pobreza), nesse contexto, não pode ser compreendido apenas como combate à miséria contemporânea: ele carrega uma dívida histórica. A pobreza estrutural das populações negras no Brasil é fruto direto de séculos de exploração e exclusão deliberada.

Escravizados a bordo de um navio negreiro no século XIX – pintura de Johann Moritz Rugendas, 1830.
Johann Moritz Rugendas, Negros no fundo do porão de navio (1830). A travessia atlântica resume a dimensão global da escravidão e o nascimento da economia colonial
imagem: Domínio público – Wikimedia Commons
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Quilombos: resistência viva

Os quilombos foram muito mais do que refúgios: eram espaços de reinvenção política, social e cultural. Autônomos, coletivos e horizontais, construíram alternativas ao sistema colonial. Essa tradição de resistência não ficou no passado: comunidades quilombolas seguem ativas, lutando por território, cultura e direitos. É nesse ponto que o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes) se conecta: os quilombos mostram que justiça não é apenas a ausência de violência, mas também a construção de instituições alternativas, nascidas da necessidade de existir fora do jugo colonial.

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ODS 16 – A Contradição Jesuítica Como Parâmetro de Uma Persistente Situação

Entre proteção e poder

Os jesuítas não podem ser vistos apenas como protetores nem apenas como exploradores. Suas missões, espalhadas pelo território, abrigavam aldeias de indígenas forros e aliados, mas também operavam fazendas em que o trabalho compulsório estava presente. A cruz e a enxada se encontravam no mesmo espaço: evangelização e exploração caminhavam lado a lado. Pois também organizaram vastos territórios produtivos, centralizando poder e recursos. Essa contradição nos obriga a perguntar: proteger comunidades era um gesto de solidariedade ou uma forma de ampliar sua influência?

Vista aérea do Parque Indígena do Xingu, com casas tradicionais circulares cercadas pela floresta amazônica.
Parque Indígena do Xingu – vista aérea das aldeias, símbolo da resistência e da organização territorial dos povos originários no Brasil
imagem: Domínio público – Wikimedia Commons
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Órgãos de defesa em disputa

Um detalhe curioso — e revelador — está nos registros jesuítas. Nos inventários, eles distinguiam indígenas livres, forros e escravizados, algo que não interessava aos colonos portugueses, que preferiam lançar todos sob a mesma categoria de escravos. Quando os jesuítas foram expulsos em 1759, essa contabilidade era apenas dos escravizados e quando foi recontabilizado os novos colonos incluíram os que eram livres. Ou seja, o que antes ficou em aberto se tornou brutal: todos passaram a ser contabilizados como mão de obra cativa e não contavam mais com a proteção dos jesuítas.

No presente, a mesma pergunta ecoa nos órgãos que regulam e defendem os direitos de indígenas e quilombolas. Funai, Incra, secretarias estaduais, ministérios — todos carregam esse duplo papel: garantir direitos ou controlar territórios? Em muitos momentos, funcionam mais como mediadores burocráticos do que como defensores efetivos. A homologação de terras pode ser protelada por décadas, a fiscalização é frágil diante do avanço do garimpo, por exemplo, e a implementação de políticas públicas se perde em disputas políticas.

Indígenas com cocares e maracás ocupam o plenário da Câmara dos Deputados em Brasília durante manifestação por direitos territoriais.
Brasília, 16 de abril de 2013 — Revoltados com a criação da comissão especial para analisar a PEC 215, que transferiria ao Congresso Nacional o poder de demarcar terras indígenas, centenas de indígenas ocuparam o plenário da Câmara dos Deputados e tomaram as cadeiras dos parlamentares
imagem: Agência Câmara – Domínio público / Wikimedia Commons
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Instituições eficazes ou tutela disfarçada?

A ambiguidade jesuítica persiste na interpretação histórica. Foram defensores contra os bandeirantes? Sim. Mas também organizaram vastos territórios produtivos, centralizando poder e recursos. Essa contradição nos obriga a perguntar: proteger comunidades era um gesto de solidariedade ou uma forma de ampliar sua influência?

Aqui se conecta o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes): instituições ambíguas, que ora protegem, ora criam impasses, mostram como é essencial construir estruturas realmente justas e inclusivas — algo ainda em disputa. Se a história jesuítica nos ensina a desconfiar da proteção como estratégia de poder, o presente exige que cobremos das instituições compromisso real com justiça e equidade, não apenas discursos de tutela.

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ODS 15 e ODS 2 – Povos Originários e Regeneração

Povos indígenas: luta atual por suas terras

A luta indígena no Brasil não é apenas pelo direito à terra, mas pela própria continuidade da vida. Cada território demarcado é também um escudo contra o desmatamento, a mineração ilegal e a grilagem. Do norte ao sul do país, comunidades enfrentam pressões constantes, mas também mostram resiliência milenar.

O caso dos Yanomami é emblemático: décadas de invasões garimpeiras resultaram em destruição ambiental e crise humanitária, com fome e doenças devastando aldeias. A presença estatal, muitas vezes tardia, revelou como a defesa desses territórios ainda é marcada por omissões e disputas políticas. E, no entanto, é justamente nesses territórios que resistem formas de vida capazes de oferecer alternativas sustentáveis para o futuro.

Mulher Yanomami com pintura vermelha e adornos tradicionais segura uma criança nos braços em meio à floresta amazônica.
Mãe Yanomami com seu filho, retratando a continuidade de um dos povos mais antigos da Amazônia e sua relação profunda com a terra e a floresta
imagem: Domínio público – Wikimedia Commons
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Negros e regeneração do solo

Pouco lembrado, o papel de negros escravizados e libertos foi fundamental para a regeneração de florestas e solos. No Rio de Janeiro, foram eles que, no século XIX, trabalharam no reflorestamento da Tijuca, replantando nascentes degradadas pelo ciclo do café na região. O mesmo se repetiu em várias frentes agrícolas: eram mãos negras que reconstituíam o que a monocultura havia destruído.

Mas a abolição de 1888 trouxe liberdade sem garantia de vida digna. Sem terras, sem indenizações e sem políticas públicas de inclusão, a maioria dos ex-escravizados foi lançada ao abandono, sobrevivendo à margem da sociedade. Regeneravam a terra, mas não tiveram assegurada a regeneração de suas próprias existências sociais e econômicas. E se os povos indígenas tiveram algum reconhecimento tardio, muito menos tiveram os afrodescendentes, cujo reconhecimento oficial — ainda insuficiente — só se consolidou graças à luta dos grupos organizados.

Menina quilombola vestida com traje tradicional e lenço colorido segura uma flor branca durante celebração no Quilombo dos Palmares, em Alagoas.
Menina quilombola durante as celebrações do Dia da Consciência Negra (20 de novembro) no Quilombo dos Palmares, em Alagoas. A flor branca nas mãos simboliza paz e memória
imagem: Domínio público – Wikimedia Commons
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Aqui, o ODS 15 (Vida Terrestre) ganha corpo: a regeneração ambiental tem história, e nela os afrodescendentes não foram apenas vítimas, mas também protagonistas invisibilizados.

Aqui, o ODS 15 (Vida Terrestre) ganha corpo: a regeneração ambiental tem história, e nela os afrodescendentes não foram apenas vítimas, mas também protagonistas invisibilizados. Reconhecer esse legado é lembrar que sustentabilidade verdadeira precisa caminhar junto com justiça social.

Mulher quilombola sorri segurando algodão agroecológico colhido na comunidade São Maurício, em Alcântara, Maranhão.
Produtora quilombola da comunidade São Maurício, em Alcântara (MA), exibe algodão colhido no Projeto Algodão Agroecológico da Liberdade, que une sustentabilidade, renda e preservação dos saberes tradicionais
imagem: Divulgação – Projeto Algodão Agroecológico da Liberdade / Governo do Maranhão
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Saberes como tecnologia

Os conhecimentos indígenas e quilombolas de manejo da terra — da coivara à agrofloresta — revelam que tecnologia não é apenas máquina ou laboratório. É também saber transmitido por gerações, enraizado na observação da floresta e no convívio com a terra. São práticas que hoje voltam a ser valorizadas como estratégias de agricultura sustentável e combate à fome. Por isso dialogam diretamente com o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável): soluções ancestrais se mostram tão ou mais inovadoras do que os pacotes tecnológicos modernos.

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ODS 7 – A Energia da Transição

Energia limpa e acessível: a dupla exigência

A história da energia sempre foi história de poder. O querosene de Rockefeller iluminou o mundo no século XIX, até ser derrubado pela lâmpada elétrica de Edison e pela eletrificação urbana. Hoje, a disputa se repete em novas escalas: petróleo, gás, carvão, solar, eólica, hidrogênio verde e carros elétricos compõem um tabuleiro em que o acesso (ou a exclusão) à energia molda as possibilidades de desenvolvimento das sociedades.
Mas o ODS 7 nos lembra de um detalhe essencial: não basta ser limpa, a energia precisa ser também acessível. Carros elétricos, baterias de lítio, parques solares e eólicos podem parecer a salvação tecnológica, mas ainda estão longe de ser realidade para todos. Enquanto elites urbanas aceleram sua eletrificação, milhões continuam pagando caro pelo básico: luz, gás ou transporte público. A transição só será justa quando unir sustentabilidade com inclusão.

Indígenas e a exclusão elétrica

Indígenas, protagonistas de tantas lutas pela terra, seguem frequentemente à margem da eletrificação. Há aldeias que vivem no escuro ou dependem de geradores a diesel — caros, poluentes e instáveis. O caso das comunidades guarani de Eldorado do Sul (RS), que estão há quase um ano sem energia elétrica, mostra a gravidade da situação: sem luz, escolas e postos de saúde não funcionam plenamente, e a conservação de alimentos se torna inviável.
Esses povos não rejeitam a eletricidade, desde que haja respeito a sua cultura e autonomia. Projetos de energia solar descentralizada vêm sendo experimentados como alternativa, mas a exclusão energética ainda é ferida aberta. Para quem preserva a floresta e regula o clima global, negar acesso à energia é repetir a injustiça histórica sob uma nova forma.

E a COP30 que o diga: anunciada como a COP da Amazônia, mas em Belém a infraestrutura básica ainda é desafio. Acomodar delegados internacionais pode ser mais simples do que garantir eletrificação justa para povos da floresta. Essa contradição mostra que a transição energética precisa ser mais que discurso: precisa alcançar quem historicamente ficou no escuro e ainda continua, sem energia.

Quilombolas e o direito negado à luz

Se os indígenas enfrentam exclusão, com os quilombolas não é diferente. Estima-se que mais de 200 mil pessoas em comunidades quilombolas ainda vivam sem energia elétrica. Em muitas regiões, a chegada da luz se deu apenas recentemente — e de forma desigual. Enquanto o Brasil discute sua liderança na transição energética global, parte dos quilombos segue apagada do mapa elétrico.

Escultura em granito de Zumbi dos Palmares no Parque Memorial da Serra da Barriga, em União dos Palmares, Alagoas.
Monumento a Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo do Brasil colonial, localizado no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL) — símbolo de resistência, liberdade e ancestralidade afro-brasileira
imagem: Domínio público – Wikimedia Commons
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A ausência de energia impacta diretamente saúde, educação e produção local. O paradoxo é gritante: comunidades que prestam serviço ambiental à humanidade — cuidando de territórios, florestas e nascentes — são justamente as últimas a usufruir da energia da transição. Sem enfrentar essa desigualdade, o discurso verde corre o risco de ser apenas marketing. A equidade energética não é detalhe: é condição para que a transição seja verdadeiramente justa.

Enquanto isso, o país se apresenta como protagonista da transição energética mundial (solar, eólica, hidrogênio verde). É como se pudesse, pelo descaso, simplesmente apagar a luz dessa história. Mas felizmente os próprios quilombolas mantêm acesa a chama de sua trajetória: seja no esforço ecológico, seja na expansão e divulgação de sua cultura, não só pelos nomes já consagrados, mas também pelos artistas das novas gerações. Nesse ponto, os povos indígenas também ajudam a iluminar não apenas suas próprias histórias, mas a nossa história comum.

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ODS 17 – Caminhos Para Reescrever a História

Memória e reparação

Não se trata apenas de reconhecer erros do passado, mas de construir políticas que reparem desigualdades ainda vivas. Povos indígenas e quilombolas não querem ser lembrados como notas de rodapé da história, mas como sujeitos de direito. O ODS 17 lembra que parcerias não são opcionais: sem compromisso efetivo entre governos, sociedade civil e comunidades, a reparação vira apenas discurso vazio.

Grupo de pessoas vestidas de branco realiza celebração religiosa às margens de um rio no Quilombo dos Palmares, em Alagoas.
Celebração afro-brasileira no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL), durante o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra — símbolo da resistência e da herança espiritual do povo quilombola
imagem: Domínio público – Wikimedia Commons
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Povos como protagonistas

A resistência desses territórios é prova de que eles já sabem o caminho da sustentabilidade. Mas falta voz nos espaços de decisão. O ODS 17 fala em cooperação e inclusão, e aqui isso significa reconhecer indígenas e quilombolas como protagonistas — não apenas consultados, mas cocriadores de políticas. É a diferença entre ouvir e agir junto.

Montagem com retratos de indígenas de diferentes etnias brasileiras, com pinturas corporais, cocares e adornos tradicionais.
Retratos de indígenas de diversas etnias brasileiras — a pluralidade cultural dos povos originários reflete a força da ancestralidade e a continuidade da resistência indígena no Brasil
imagem: Domínio público – Wikimedia Commons
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ODS como oportunidade

A Agenda 2030 pode ser mais que um conjunto de metas técnicas: pode ser um pacto de justiça histórica. Incorporar indígenas e quilombolas nas estratégias de desenvolvimento é cumprir o espírito do ODS 17 — não deixar ninguém para trás. A cada parceria verdadeira, abre uma chance de reescrever a história: da exclusão para a inclusão, da exploração para a cooperação, da resistência para a esperança.

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Conclusão

Da colônia ao futuro

Os ODS são rascunhos globais para orientar o século XXI. Mas nenhum roteiro pode ser completo sem levar em conta as histórias locais. No Brasil, a escravização indígena, a diáspora forçada africana e a resistência quilombola moldaram nossas desigualdades — e também nossas formas de resistência. Colocar essa singularidade dentro do mapa da Agenda 2030 é reconhecer que futuro se constrói com memória.

Aurora de Drummond

As mudanças nem sempre chegam como explosão. Às vezes avançam no passo macio de um leiteiro, discreto na madrugada. Pegamos emprestada a metáfora de Drummond (pela segunda vez como aporte conceitual de nossas imagens), em seu poema A morte do leiteiro, que nos lembra que a transformação pode ser silenciosa e persistente — como povos que atravessaram séculos de violência e apagamento e seguem vivos, regenerando terras, saberes e modos de vida.

É na sutileza da aurora que se anuncia um novo dia. Infelizmente, ainda hoje, muitas vezes a terra chora sangue misturado à seiva das árvores derrubadas. Mas permanece a esperança de que essa aurora seja iluminada por um sol de céu límpido — e que esse dia seja de todos. Ainda dá tempo!

Uma nova perguntAÇÃO!

Os ODS são mapas traçados sobre um planeta em mutação.
Mas que bússola seguimos, quando a floresta fala da necessidade da preservação e o vento dos interesses econômicos muda de direção?

De que vale medir o desenvolvimento sustentável contra o desenvolvimento a todo custo, se a justiça ainda não encontrou morada?

As metas existem — mas quem as habita?
As palavras serão novamente escritas na COP30 — mas quem as traduz em gesto?

Aguardem o duplo artigo, um pré outro pós a COP30, por uma verdadeira perguntAÇÃO!

E se, em vez de concluir, aprendêssemos a começar de novo —
com menos certezas e mais perguntas que nos levem à ação?

Talvez o tempo que ainda temos dependa disso:
de reaprender a perguntar aos nossos ouvidos moucos… se ainda dá tempo de escolhermos a aurora que anuncia outra forma de viver?

Comments

  1. DOMINGOS SAVIO COELHO

    Esses ODS deveriam ser revistos pelos povos originários ne? Eles tem a visão do todo, corre-se o risco não apenas ds reinventar a roda mas de perdermos uma perspectiva integrativa que esses povos tem. Por exemplo, a questão espiritual. Não está na base do ODS a conexão com os ancestrais

    1. Paulo Lai Werneck Post
      Author
      Paulo Lai Werneck

      Grato Mingo por levantar essa questão. Tem toda a razão, a revisão dos ODS num debate onde a parte citada é ouvida e incorporada aos textos é fundamental para se tornar como dizemos, mais que letra viva, mas letra atuante… o Eduardo Viveiros de Castro coloca essa questão de que os indígenas aceitam a explicação dos micróbios entre outras coisas, incorporando no seu pensamento e nós, diz ele, brancos ocidentais, dizemos ah!, sim claro a essa questão espiritual indígena, mas efetivamente, parece entrar por um ouvido e sair pelo outro… é como se a questão da visão espiritual indígena fosse apenas uma historinha deles. Agora por outro lado tem uma porção de jovens indígenas que estão conectados com programas da ONU no que se refere a Agenda 2030, talvez eles num momento ou outro resolvam isso ou estabeleçam outros parâmetros ou quem sabe ainda a urgência de cessar a violência sobre os indígenas e o problema se sempre que paira sobre os territórios dos povos originários, desde demarcações prometidas e não realizadas a garantia de medidas contra invasões e/ou pós invasões justamente onde já há essas demarcações sejam aspectos de maior urgência… E é importante salientarmos de que uma PerguntAÇÃO é: mesmo o Ministério e a Funai sejam presididos por lideranças indígenas e o governo atual seja pró a essas questões, há outras questões de interesses, sejam da oposição sistemática, seja de interesse do próprio governo que esbarram na implementação e na solução dos problemas levantados acima.

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